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Eduardo Mahon

Editor Geral

EDITORIAL

Navegando em mares digitais, vi reproduzida uma citação de Djamila Ribeiro: “como negra, não quero mais ser objeto de estudo e sim sujeito de pesquisa”. É uma bonita frase, mas não deixa de ser contraditória, apontei no post alheio. Ponderei – qual é o objeto escolhido pela estudiosa?; uma pesquisa não deve sempre ter um sujeito e um objeto?; a condição racial não é um objeto de estudo?; a condição social não é um objeto de estudo?; a condição sexual não é um objeto de estudo? Não demorou para que outras pessoas se voltassem contra mim – você está criticando Djamila Ribeiro? Sim, estava. E daí?! Até mesmo na academia, onde não deveria haver catecismos, há o cacoete do argumento de autoridade como se a citação conferisse patente ao discurso de quem o reproduz. É uma frase boa, ma non troppo, ora bolas!


A fixação em frases de efeito, apelos retóricos que impactam com objetivo de “lacrar” pode conduzir a perplexidades lógicas. Esse é um dos muitos casos em que a comunidades de fieis da igrejinha ideológica reage com uma crítica ad hominem, exatamente a mesma reação que tanto condenam. Evidentemente que entendo a colocação da estudiosa: Djamila cansou-se de ser objeto de estudo e foi em busca da própria voz, assumindo o protagonismo na pesquisa e na formulação de um ponto de vista. No entanto, ainda que seja a frase tenha a melhor das intenções, não se sustenta. Qualquer autor e qualquer crítico pode (e deve) ser objeto de estudo. É muito natural que o discurso seja analisado. “Como negra”, é a primeira e mais óbvia secção a fazer na fala de Djamila, talvez o segmento mais polêmico, embora não seja o mais relevante para o debate. A frase pode ensejar uma boa reflexão sobre sujeito e objeto no discurso científico – esse sim um tema que provoca brotoejas nos pesquisadores.


“Como homem”, “como branco”, “como escritor”, “como pai”, “como estudante”, “como editor”, digo que... Trata-se de uma apresentação autobiográfica, não? Uma espécie de papel timbrado daqueles que pretendem uma audiência cativa e sacam do bolso o cartão com o nome, a profissão, telefone e o endereço comercial. A crítica anda fazendo a mesma coisa. Antes de apresentar a pesquisa, entrega-se o cartãozinho – pesquisador negro, branco, gay, hetero, rico, pobre, jovem, velho, especialista, mestre, doutor e, mais modernamente, pós-ultra-mega-plus doutor. É a velha frase “você sabe com quem está falando” às avessas. Importa considerar o pesquisador e sua condição existencial tão importante quanto o resultado da pesquisa. Aplicando essa “carteirada intelectual”, deveremos validar as conclusões teóricas de um autor sob o ponto de vista da representação social ou, pior, invalidá-las. Comigo não, violão!


O “local de fala” é uma das muitas variações do pensamento classista. Como qualquer outra ponderação acadêmica, deve ser levada em conta com seriedade e escrutinada para saber se resiste. Aliás, a crítica da crítica não é um movimento novo. Descortina o recorte temático, a intenção estética, a seleção ideológica. Contudo, esse exercício tem como objeto a crítica, não o crítico. Se a leitura eminentemente biográfica é o que há de mais pueril para mensurar a complexidade do texto literário, por que a crítica biográfica do crítico também não o seria? Esse movimento de (in)validação teórica de acordo com “quem está falando” milita contra o teórico porque sempre o reduz, segmenta, classifica, padroniza e estigmatiza. Sendo assim, poderemos aplicar a mesma lógica à própria crítica (ou ao crítico), invalidando o argumento por ter partido de uma biografia comprometida com um determinado ponto de vista. O pensamento é autorreferente e conduz a conclusões circulares. A última coisa que precisamos é de mais uma estante para segmentar a livraria.

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