© 2019 - Revista Literária Pixé.

  • Facebook

Eduardo Mahon

Editor Geral

EDITORIAL

Em que medida as fotografias de moradores de rua configuram o estatuto da arte contemporânea? Noutras palavras: a arte deve se engajar numa causa socialmente relevante? Poderíamos fazer a mesma pergunta quanto à literatura. Antes que possamos responder, vamos refletir sobre Os Miseráveis. Victor Hugo tornou-se cânone em razão do tema ou da estética? Fôssemos pensar somente em termos temáticos, poderíamos questionar a obra de Shakespeare ou de Balzac, o que seria lamentável. As ligações frugais de classes abastadas em Goethe, cenas patéticas da aristocracia em Lampedusa, idealizações sociais em Proust, tudo isso seria futilidade inútil para uma literatura comprometida com a emancipação do povo. Mas a arte deve seguir uma cartilha? O artista tem mesmo essa obrigação?


Os militantes que patrulham obras de arte com o termômetro do engajamento são os que mais rotulam. Pretendem impingir uma sanção àqueles que não se comprometem. Os divergentes são omissos e, portanto, estão excluídos do reconhecimento crítico. Acusam de omissão todo escritor que se negar a fazer da pauta esperada sua matéria-prima. Tal hiato temático é tomado não só como covardia. Trata-se de colaboração por omissão. O artista passa a ser responsável pela perpetuação da miséria, do preconceito, do autoritarismo. Mas há posição mais autoritária do que impor um ponto de vista? De forma alguma. 


Os que não cedem à pressão do politicamente correto percebem com relativa facilidade que, em qualquer estilo literário, a obra não se constitui como uma mera reprodução. Há várias mediações entre o texto e a realidade entre as quais a estética do autor e a recepção do leitor são as mais importantes. As fotos de Leporo mostram o Brasil como é? Não. Mostram a sensibilidade particular de um grande artista que fez do tema social o seu ponto de partida para o esforço estético. Se, na fase seguinte, dedicar-se a fotografar as flores dos jardins paulistanos será menos competente? Não. 


A questão nos faz voltar no tempo. Os girassóis de Van Gogh foram menos revolucionários do que os retirantes de Portinari? Os jardins multicores de Monet foram menos impactantes do que a guerra civil espanhola de Picasso? As praias da Polinésia fizeram de Gauguin um artista menor do que Rivera? E Klimt? Será ele pior porque pintava damas da sociedade com filigranas de ouro, enquanto Munch exprimia o desespero existencial? Degas terá menos mérito por pintar delicadas bailarinas do que Toulouse-Lautrec que pintou prostitutas e bêbados em cenas urbanas? 


Basta uma visão mais ampla da história da arte para que essas patrulhas contemporâneas caiam no ridículo. Sabe-se que é pela estética que a arte se define. O fotógrafo Leporo não é bom porque fotografa moradores de rua, mas porque sabe como fazê-lo. Exprime o vazio da metrópole, a solidão em meio à multidão, mas não deixa de buscar a humanidade na situação mais extrema. Se mudasse o eixo temático, poderia fazer o mesmo num salão de chá da Oscar Freire. Por quê? Porque o artista busca o humano. E o humano não está no objeto observado e sim na forma de observar. Será difícil entender isso?


Vivemos tempos estranhos. Os que dizem “resistir” ao autoritarismo são autoritários. Rotulam, classificam, reduzem e excluem com a mesma facilidade daqueles contra quem desferem a crítica. Não querem discutir. Partem de conclusões e inviabilizam qualquer diálogo. A Revista Literária Pixé completa seu primeiro ano “resistindo à resistência”. Publicamos surrealismo, aquarela, mendigos e jardins. Publicamos textos sobre a fome e sobre Paris. Acreditamos na diversidade, não naquela de um único ponto de vista estético e temático que, como é óbvio, não é diversidade. Respeitar e garantir a existência do outro significa manter a admiração pela arte sem manipular pressionar o artista. O único compromisso do artista é com a arte, revolução suficiente para o mundo que habita a alma de cada um de nós.