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Divanize Carbonieri

Doutora em Letras pela Universidade de São Paulo e professora de literaturas de língua inglesa na Universidade Federal de Mato Grosso. É autora de Grande depósito de bugigangas (2018), selecionado no Edital de Fomento à Cultura de Cuiabá, e de Entraves (2017), vencedor do Prêmio Mato Grosso de Literatura na categoria Poesia. Foi finalista do Prêmio Off Flip 2018 (Poesia) e selecionada para a antologia poética no 3o Concurso Lamparina Pública em 2016. É uma das editoras da revista literária digital Ruído Manifesto.

Eduardo Mahon

43, é carioca da gema, advogado e escritor. Mora em Cuiabá com a esposa Clarisse Mahon, onde passa sufoco com seus trigêmeos: José Geraldo, João Gabriel e Eduardo Jorge. Autor de livros de poemas, contos e romances, publica pela Editora Carlini e Caniato.  

Marli Walker
É Doutora em Literatura (UnB). Leciona no IFMT e integra o Coletivo Maria Taquara - Mulherio das Letras/MT. Publicou os livros de poesia: Pó de serra (2006), Águas de encantação (2009) e Apesar do amor (2016), contemplado pelo edital do MEC para o PNLD (2018).

Marta Cocco 
É natural de Pinhal Grande-RS, formada em Letras, doutora em Letras e Linguística, professora de Literaturas da Língua Portuguesa na graduação e na pós-graduação da UNEMAT-MT. Faz parte do grupo de pesquisa LER: Leitura, literatura e ensino – UNEMAT/CNPq. Ganhadora de vários prêmios literários, já publicou cinco livros de poemas (Divisas, Partido, Meios, Sete Dias e Sábado ou Cantos para um dia só), dois de crítica literária (Regionalismo e identidades: o ensino da literatura produzida em Mato Grosso, Mitocrítica e poesia), um de contos (Não presta pra nada) e, com este, três infantis (Lé e o elefante de lata, Doce de formiga e SaBichões).

PANDEMÔNIO

SEMANA 01

Nunca, nunca, diga nunca. Pois é o mesmo que cuspir pra cima. Jurei que nunca mais na vida moraria de favor com alguém, depois de tudo o que sofri na casa do tio Márcio. Mas o destino dá umas invertidas na gente. Osvaldo morreu de infarto há três anos. Só então descobri que a empresa não vinha bem. Quitei as dívidas e montei uma agência de turismo porque, nos anos de bonança, peguei gosto pelas viagens. Mas agora fodeu tudo. Com essa pandemia de coronavírus, tive de fechar a agência.   Com o dinheiro acabando, aceitei o convite da Regina. É minha cliente mais forte. Gente boa, generosa, podre de rica. Vim passar uma temporada na casa de veraneio dela.  O que eu não esperava era me deparar com mais dois hóspedes. Os três na mesma merda, convergindo para a generosidade da Regina. Ninguém merece uma quarentena com a Semíramis e o Sérgio Augusto.


Lógico que esse semestre ia ser um horror: dia 10 de janeiro teve eclipse lunar. Tá certo que foi em Câncer, pior seria se fosse em Capricórnio, onde já tem uma pá de planetas. Mas minha casa 2 começa em Câncer, justo a casa 2, que é a das finanças e dos bens. No mapa coletivo do momento, Câncer tava na casa 8, a das grandes transformações, da morte. Todo mundo sabe que um eclipse traz para a superfície aquilo que está escondido. E o que ocorreu depois desse eclipse em particular? O surgimento e expansão do coronavírus pelo mundo, fazendo o ser humano enxergar a destruição da natureza e matando a torto e a direito. O mundo todo transformado, sem a gente ainda saber o que vai dar. E, no meu caso específico, como esse abençoado aconteceu na casa 2, apareceu um monte de dívidas pra pagar. Algumas não eram nem minhas, mas da firma que meu pai tinha e que estava no meu nome, justamente porque o dele já tava sujo. Gastei o que tinha e o que não tinha pra saldar tudo. Mas tive que entregar a casa e, pra eu não ir parar embaixo da ponte, minha amiga e cliente rica, a Regina, me ofereceu abrigo na casa dela


Babado! Quando eu contar pras bibas todo esse fuxico, elas vão ter um a-ta-que! Estava eu, toda no salto, ajudando a Regina nas compras. De repente, pá! – o coronga vírus ataca. Bicha, para e pensa! A mulher surtou. Olhou pra mim no meio da Gucci e disse – Sérgio Augusto, apronte-se! Você vem comigo! Eu? Euzinha? Não tive alternativa. Coloquei meu lenço de seda na cara e me joguei. A gente juntou todas as sacolas, comeu alguma coisa no ‘Gero e #partiu. Ela parou na frente do meu barraco, esperou eu fazer as malas e fomos direto para a casa de veraneio. Amiga rica é isso, né? Que casa! Piscina com borda infinita. Bicha, realiza: seis suítes, canal pago e champanhe free! Regina é poderosa. Abriu a mansão pra mim e outras duas amigas. Pobrinhas, coitadas. Gente que já teve algum glamour, mas hoje?! Quebradézimas. Uma delas tem uma empresa de viagem, mas nunca foi a Paris. U-ó! A outra é picareta, cala-te boca! Diz que é sensitiva. Comigo? Não cola. Mas a Regina gosta de ser enganada. Desde o primeiro marido, um alpinista social, eu já saquei tudo. E o feng-shui que mandou fazer na empresa? Carézimo! Pensando bem, qual o problema? Tem pra gastar. Gasta até comigo, um personal shopper. Não é pra quem quer, é pra quem pode! Eu fiquei de criada na mansão. As madames se ajeitaram no segundo piso. Sorte a minha que sei cozinhar. Em tempos de pandemia, sou indispensável. Minha estreia foi um risoto de tartufo com filé na mostarda. Menina, era dijon legítima. Berro!


Quem é que pode saber o que o destino guarda pra gente, não é? Pois é, ninguém. Não que eu leve a sério vidente, pai de santo, premonição ou qualquer tipo de coisa que se assemelhe. Fato é que nos horrorizamos com o noticiário sobre os mortos e contaminados mundo afora, mas não acreditamos que a pandemia chegasse ao Brasil. Chegou. Se o falecido estivesse aqui já estaríamos banhados em álcool em gel, a sós, curtindo a quarentena. Mas como o destino gosta de pregar suas peças, aqui estou eu com Sérgio Augusto, Gu, para os íntimos, a tresloucada Semíramis e Glaura, aquela que tenta manter a pose, mas já se ferrou faz tempo. Eu tentei avisar, mas ela não me ouviu. Não vem ao caso agora. Amigo é amigo e isso está acima de qualquer questão. Mesmo que eu não fosse terrivelmente evangélica, teria socorrido os três. Gu é meu fiel parceiro para toda e qualquer situação, ponta firme, não tem frescura para o trabalho e o resto, bem, o resto é frescura que não me diz respeito. Semíramis vive no mundo da lua desde os tempos da faculdade. Ela acredita que o vírus veio mesmo pra transformar a humanidade. Glaura, tadinha... É por ela que mais temo. Dos quatro confinados, será a mais prejudicada. Bem, pelo menos aqui estamos seguros. A geladeira abastecida com as melhores grifes de comes e bebes, o jardim bem cuidado, estendendo o gramado até a praia e a vista, ah, essa vista que traz o azul do mar para dentro dos meus olhos e me enche de paz. #vai passar.

SEMANA 02

Oh meu pai do céu. Esse negócio de precisar dos outros não é de Deus. Regina, onde você arrumou essa Semíramis? Esquisita até no nome...


- Não fala assim, ela é maravilhosa, entende tudo de astrologia, fez meu mapa astral. É com ela que me aconselho antes de viajar, ela é porreta.


- Sei não Regina, tá mais pra picareta, isso sim.  Maravilhosa é você! Acho incrível isso de você estar sempre citando a palavra de Deus e ao mesmo tempo procurar outras fontes místicas. Ecletismo está na última moda. Adorei o convite. Que casa, hein? Parabéns! Bom gosto! E esse Sérgio Augusto? Porra, Regina. Fiquei 35 anos casada com o Osvaldo. Agora que to conhecendo outras felicidades você me traz um veado pra cá? Não tem um amigo dando sopa, não? Com dinheiro, porque quebrada basta eu.


-  Amiga, sossega. A prioridade agora é ficarmos vivos. Logo passa!


-  Logo? Tá de brincadeira? Olha Fortaleza, Manaus, o trem tá feio. Tão enterrando 300 pessoas num dia. E daí? Diz o teu presidente! Estamos seguros aqui por quanto tempo? Mas voltando à Semíramis. Amiga, a mulher toma vinho suave?! Putz! E você não sabe da maior. Não tem aquela hora na piscina? Deixei ela ler minha mão só pra ver qual era. “Você vai atravessar uma turbulência financeira”. Ah, Jura? “Nenhum amor previsto para os próximos meses”. Não diga! E mais meia dúzia de chute e picaretagem. Mentalmente mandei ela tomar no furasteco umas dez vezes. Mas sou fina, né amiga, fingi que adorei o que ela falou, disse que não sabia como ela tinha acertado tanto... Agora, vem cá: E aquele cabelão? Precisado de uma tinta e tesoura!
-  Tá afiada hoje, hein, Glaura? Vamos lá na cozinha ver o que tá rolando.


-  Daqui a pouco. Só vou dar uma conferida no face.


Vou nada. Da última vez que fui me puseram pra descascar abóbora cabotian. Tô fora.


- Regina de Deus, como é que você não me avisa que eu iria passar a quarentena com uma capricorniana e um libriano? Senhor Jesus, como diz você, não é brincadeira, não.


- Pare de julgar sempre as pessoas pelos signos. O Gu e a Glaura são gente boa. Meio desmioladinhos, mas não fazem mal a ninguém.


- Precisava fazer uma sinastria com eles porque daí saberia exatamente como agir, porque você tem razão: só o signo solar não faz a pessoa. Tem muitas outras coisas, mas como saber sem fazer o mapa de cada um?


- Nenhum dos dois acredita em astrologia. São céticos. Eu, que sou evangélica, não acredito nem desacredito. Quem sou eu pra dizer o que existe entre os céus e a terra? E já percebi que mal não faz. Mas se eu contar lá na minha igreja, acho que o pastor me expulsa.


- Você é pra frentex como toda boa aquariana, Regina. Não se atém a mesquinharias. Consegue ver o que há de bom em todos. E sua família é mesmo a humanidade. Por isso nos recebeu aqui, nós, tão diferentes uns dos outros. Mas olha só, querida, sinto lhe avisar, mas a Glaura, sendo essa capricorniana renhida que é, só quer saber de dinheiro. Olhei as linhas da mão dela. A linha do coração é mínima, sinal de que é mais fria que um iceberg. A linha da mente é enorme, o que significa que inteligência ela tem, mas a gente tem que ver voltada para o quê. Agora, a linha da prosperidade é um assombro: cheia de riscos, quadrados, triângulos. Essa mulher já ganhou e perdeu dinheiro em muitas ocasiões, não é mesmo?


- Ela é um pouco assim mesmo. Mas não nesse exagero que você está dizendo. Acho que ela só não tem sorte nos negócios.


- Pois eu, se fosse você, tomaria muito cuidado com ela. Sujeitinha interesseira tá ali. Agora, esse menino, o Gu, sabe que ele até não é má pessoa, mas é muito fútil e...


- Chega! Não aguento mais ouvir você julgando quem nem conhece. Olha, Semíramis, você tem que entender que você não é a palmatória do mundo. Devia tentar olhar pra si mesma antes de falar dos outros. Vai caçar o que fazer. Vou lá na dispensa buscar a farinha que o Gu pediu pra fazer pão. Porque pão de padaria não tenho mais coragem de comer. Já pensou se tá tudo contaminado?


Não é um pão qualquer, bicha! É focaccia. Italianíssimo. Ah, Senhor! Como é triste conviver com gente pobre. Um horror. Eu devo ter um sensor de pobre que apita na minha cabecinha. Essa Semíramis não tem um centavo e quer arrotar glamour. E a outra? Glaura! Isso é nome? Me recuso! Glaura é nome de pobre. Não combina com os móveis da Regina. Desde que chegamos, as duas perderam a pose. Laleska bagaceira, sabe? Mas o coronga vírus não ajuda mulher, isso é verdade. Três meninas sem depilação? Ninguém merece! Na primeira semana, o cabelo da Glaura deu pinta na raiz. E as pontas duplas da Semíramis? Abafa! Não havia o que fazer na quarentena. Regina foi taxativa: ninguém entra e ninguém sai. Mulher magnânima. Determinada! O jeito foi conviver com a entourage que ficou babando o ovo da única lady do pedaço. No dia seguinte, Semíramis pegou a minha mão e quis ler a sorte. Me erra, bicha!, reagi à altura. E a Glaura que circulava na casa de calcinha e camiseta? Queria lacrar, coitada. Não se enxerga. Tá caidíssima. A mona queria esfregar aquela bunda no meu orgulho. Xô! É puro capitonê. Não sou obrigada! O tempo passou assim: cozinha, champanhe e facebook. A gente arrasou. Todas as bibas do país surtaram. Mas ninguém soube do bafão da tal Semíramis. Fiquei passada! Louca de jogar pedra. Não demorou uma semana pra vir pra cima de mim. Entrou no quarto, tirou a roupa e me atacou. O que eu podia fazer? A mulher não fica sem neca. Antes do amanhecer, fugiu pro quarto dela. Alôca!


Mas onde o Gu escondeu meus sais de banho desta vez? Mania chata que ele tem de xeretar em tudo. A biba sonha em se refestelar na banheira, mas aqui não, aqui só entra a rainha absoluta, ora, convenhamos. Cá pra nós, ele pensa que tem uma rosa de ouro entre as nádegas ou o quê? “Guuuuuu!, suba aqui agora”. Incrível como gosta de ficar afrontando as duas convidadas. Já não basta a privação de shoppings, compras, viagens, agora mais isso? Os três parecem crianças mal-agradecidas que cospem no brinquedo novo. Ontem passaram o dia na piscina com direito a champanhe e petiscos com açafrão – ouro vermelho, se é que me entendem – e caviar. Fiz esse agrado aos hóspedes, pois como já falei, amigo é amigo. É Deus no céu e amigo na terra. “Guuuuu-uuu, Sérgio Augustoooo, estou chamando, anda logo”. Olha, não é fácil... Haja pele, cabelo e finesse para aguentar tudo isso. Bem, melhor descer e ver o que se passa. Hum... essa escada precisa de boa uma limpeza. É pra já que dou um jeito nisso. “Glaura, querida, tua queda de cabelo está formando um tapete na escada, precisa cuidar disso quando sairmos da quarentena, amada! Do cabelo, quero dizer, porque da escada você vai cuidar agora. Aproveita e dá uma geral no hall também. Semíramis te ajuda e já faz uma boa limpeza aqui na sala. Gu, pelo amor ao meu Jesus Cristinho, onde foi que você enfiou meus sais de banho?”. 


SEMANA 03

-  Semíramis! SEMÍRAMIS!


-  Ai não grita, o que foi?


- Porra, faz meia hora que eu tô te chamando de volta pra terra, caralho. Você viu aquela bicha endemoniada por aí?
-  Foi dar uma volta na praia com a Regina.


-  Puxa saco! Um elogio por segundo e a Regina banca as grifes desse pé rapado. Não é possível que ela seja tão carente assim. Tem alguma coisa que não bate nesse negócio de ela ser crente e ter um personal styler. Aí tem.


- Fala, Glaura, desabafa, qual é a fofoca dessa vez?


- Você acha que o Gu é de confiança? Você acha que é capaz de inventar alguma coisa, uma mentira, fantasiar, algo assim?


-  Seja mais precisa, Glaura, onde você quer chegar?


- Olha, eu não sou preconceituosa, tá? Meus melhores amigos são gays, mas bicha espalhafatosa é diferente, não sei. Pois ele não veio me dizer que já foi pro motel com o cunhado do Osvaldo? Porra, aquele cara é fã de milico, Bolsonaro no último, católico carismático, casado, tem filhos, super conservador, ia lá sair com veado? E sabe o quê? Passivo! Diz que ativo era ele, Gu! Tá bom pra você? Se Osvaldo soubesse disso, teria tido um ataque. Um enrustido na família!


-  Tudo é possível. Me passa a data de nascimento dele que eu faço o mapa e já te digo se é verdade ou não.


- Ah deixa pra lá, Semíramis. Quer saber? Fodam-se. O Brasil tem mais mortos do que a China, país grande também, o que permite comparar, e eu quero lá saber de enrustido. A ordem agora é sobreviver. Por falar nisso, será que a gente aguenta mais quanto tempo as comidinhas de fresco desse cara, hein? Não é justo. Acho que ele faz de propósito. Comida que não mata a fome! Tô pensando em assumir de vez a cozinha.


- Não faça isso, fica na limpeza que você tá arrasando.


- É né? E não limpo nunca mais bosta de gato, viu? Essa biba, além de tudo, trouxe essa gata peluda. Tem pelo pela casa toda! E o nome? Nunca vi isso. Gata ter até dois nomes, tudo bem. Mas três? Sandra Rosa Madalena! É o fim dos tempos.


- O vírus vai realinhar a órbita dos planetas, antes do fim dos tempos.


- Semíramis, você está acompanhando o noticiário? Ou tá se informado pelo zapzap? Tá ligada, Semíramis? 


- Tudo faz parte de uma conjunção astral, este é o ano regido pelo...


- Chega, Semíramis. Tô vazando antes que você diga que a China inventou o vírus pra derrubar o presidente do Brasil.


- Você tá amarga hoje, hein?!


- E você fica aí viajando na maionese de trololó com a biba achando que tá fazendo vantagem. Quer saber? Eu ouvi ele falando pra Regina que você é piranhosa, que bateu no quarto dele e se atirou, tá bom pra você?


- O quê? Volta aqui! Volta aqui, menina veneno!!!


- Bye, good night, Queen of astrology!


- Gu, eu juro que não fui eu. Foi a minha pomba-gira que desceu, a cigana Sara Kali. Quando ela desce, não tenho mais poder sobre o meu corpo. Bem que eu percebi que naquele dia me deu um apagão, mas achei que tinha exagerado no champanhe. Mas foi ela, Sara Kali, que te atacou.


- Que papo mais de aranha, amapoa! Assuma teus atos. Que cigana Sara Kali que nada. Esse fogo não vem de pomba-gira nenhuma, vem dessa racha inflamada e sebosa que você tem.


- Você fica zombando das forças do além, logo vem o castigo. Mas se era tão ruim assim porque não resistiu, biba? Por acaso a cigana botou revólver na tua cabeça? Isso ela não faz. 


- Olha, se bem que aconteceu algo estranho comigo mesmo. Parecia que eu tava possuído. Porque nunca que eu ia pegar uma racha assim de livre e espontânea vontade.


- Num falei? Sara Kali agindo.


- Mas é loucura isso, Semíramis. Você me põe doido com essas suas manias. Mas deixa estar. O que passou, passou. Lavou, tá novo. Escuta, amapoa, eu e você precisamos nos unir pra desbancar essa Glaura. Ela tá bem se achando a queridinha da Regina. E como odeia a gente, é capaz de fazer nossa caveira. E daí tamos fodidos e mal pagos.


- Bom, mas isso a gente já está, né? O que a gente pode fazer pra impedir que ela faça isso? Só se eu tirar as cartas e...


- Nada disso! A gente precisa de ação e não de conselhos de tarô. Sabe aquela pulseira de esmeralda da Regina? Pois então. Vamos colocar nas coisas da Glaura.


- Pra quê, bicha?


- Como pra quê? Em que mundo você vive, sua louca? A gente vai fazer a Regina pensar que a Glaura roubou a joia dela.
- Coitada, Gu. 


- Coitado é filho de rato que nasce pelado. Assim a gente se livra dela e fica em paz aqui nessa casa. Em paz, mais ou menos, né, porque com essa doideira sua ninguém fica em paz. Mas pelo menos você é menos sinistra que a Glaura. Vamos lá. Para o alto e avante!


Parou! Desisti de entender mulher. Chega! Me joguei. Depois é depois. A gente apaga tudo e finge que não aconteceu. Morro e não conto. Meus lábios são um túmulo. Mas a verdade é que, noite após noite, elas se revezavam. Quem nunca comeu mel quando come se lambuza! Essa Glaura, coitada, mais um pão com ovo que Regina põe a mão... Se jogou na noite seguinte pra cima de mim. Chaveou a porta por dentro, tirou a roupa e desbundou. A gente quebrou louça a noite toda. Tô bege! Pegou o meu babado e fez gato e sapato. Como odeio gente gulosa! Essa quarentena não me fez bem, sabe? A borboleta virou lagarta. Tem base?! Bicha, que escândalo. Quem imaginaria? Eu tão panqueca. Panquequíssima! Dindinha queria me converter. O pastor dela disse que faria um exorcismo em mim. Jamais beaucoup! Eu rodei a baiana e não fui. Uma vez biba, biba até morrer! Mas a macumba da Seríramis é forte! Abusaram da boneca. Polícia! Se eu pudesse, chamava. Juro. A primeira que ia presa era a tal Glaura. Além de tarada, deu a elza na patroa. Onde já se viu?! Só me falta agora a Regina cismar comigo! Mas ela gosta de preto. Tição, menina! Quanto mais noite, melhor. Abafa o caso! Quem pode, pode. Vitaminada. Toda trabalhada na academia, platinada no salão, retocada na clínica. Arraso. Só de falar, subiu um comichão aqui, bicha! Nem te conto... O único problema de Regina é essa mania de vestir verde-amarelo. Já disse: não combina com a riqueza. Isso é coisa de pobre deslumbrada. Mas ela não me ouve. Votou no tal Mito. Imagina que proibiu as amigas de assistirem à Globo! Ficamos sem novela e sem Big Brother. Que porre! Pelo menos, ela não regra o La Prairie pra passar nas rugas. Gente, fiz 30 aninhos em plena quarentena. Juro. Sou a mais nova BF da praça. Fiquei passada... Sabe de uma? Parei. Decidi trancar o quarto à noite. Fechei pra balanço!


Ahh, essa quarentena está cansando minha beleza. Aturar essas duas juntas, fazendo fofoca o tempo todo, não tem sido fácil. Não sei como o Gu aguenta, coitado. Se faltasse algo a elas, vá lá, mas estão vivendo férias patrocinadas, comendo e bebendo do bom e do melhor, mas não reconhecem. Coisa triste de ver nesse mundo é pobre mal-agradecido. Mas o que posso fazer? A amizade vale mais, muito mais. O fato é que estou entediada com essa paradeira toda. Gosto desta casa quando a vida está normal, sem isolamento, quero dizer. Quando posso ir e vir a hora que dá na telha. O Mito é que está certo e a mídia é que exagera, mensageira do apocalipse. Que horror. A verdade é que os dias se arrastaram com mais vagar que imaginei. Jurava que no máximo em quinze dias estaríamos livres. Eu teria acolhido meus amigos, passaria por boa samaritana e devolveria cada um ao seu cafofo. Menos o Gu, claro, que sem ele não vivo. Por Deus do céu! Que bomba é essa? “Genteeee! Vocês precisam ver esse boato aqui no facebook! Mito e Moro estão se estranhando, não é possível, isso é conversa, mentira dessa imprensa difamatória que não pode com o sucesso do meu presidente”. Mas onde estão essas criaturas que não respondem? Ah, devem estar comendo, imagina, é o que mais e melhor fazem. Não que eu me importe, mas estão ganhando peso a olhos vistos, um horror. Huumm... cozinha às moscas, ninguém na sala de jantar nem na de estar. Devem estar na varanda... “Meu Pai Poderoso! Mas o que é isso agora?! Vocês perderam de vez a vergonha???” Por Deus do céu... Os três pelados na piscina na maior esfregação! “Sérgio Augusto, você pode me dizer o que se passa? Não, não precisa, pois eu estou vendo. Meninas, um pouco de compostura, por favor... Quero uma reunião com os três na sala de estar, em meia hora, não se atrasem, por favor”.


SEMANA 04

Ok, Regina, você falou, Semíramis falou, e seu querido Gu também. Minha vez:


- Estávamos nus na piscina, sim, depois de fazermos uma meditação com a Semíramis que, desta vez, estava bem intencionada, percebendo a tensão que esta casa virou. A parte dos ataques noturnos ao seu personal bissexual, resolva com a sua conselheira astral, porque comigo, não. Se ele gosta de fantasiar durante as insônias, me inclua fora dessa.  Aliás, a fantasia dele foi longe demais. Se você for agora, no meu quarto, na bolsa interna da minha mala menor, encontrará sua pulseira de esmeraldas. Sabe como foi parar lá? Semíramis me contou quando saímos da piscina, porque achou que seria esse o assunto. Você foi longe demais na criatividade, Sergio Augusto. Dito isso, vou subir, fazer minhas malas e irei embora. A última coisa que peço, Regina, é uma carona até a cidade, por conta das malas.


Amanhã faz quantos dias que estamos juntos? Era para termos reforçado nossos laços, não, Regina? Mas sabe o que aconteceu? Descobri muita miséria entre nós. Realmente, de perto ninguém é normal. Você nos trouxe aqui porque precisa demonstrar aos filhos, que moram fora, que é amada por alguém. Carrega para cima e para baixo esse bicha mau caráter porque ele sabe do seu caso com o pastor. A única decente aqui é a astróloga, de quem eu ri e debochei, mas me livrou de uma acusação de furto. O mundo está em frangalhos lá fora! E eu aqui confinada com um monte de gente miserável, inclusive eu. Estou falida e pensei sim em me dar bem com os clientes ricos e influentes que tenho, sei como é difícil dar duro, e também sei como é bom viver com bastante dinheiro. Não queria voltar ao batente. Sou tão miserável quanto vocês. Mas por pouco tempo. Vou voltar às origens. Minha primeira profissão foi auxiliar de enfermagem. E se tiver de morrer, que seja de covid-19 e não dessa superficialidade que eu estava vivendo com vocês. Quando eu sair por aquela porta, me esqueçam. 


- Eu não acredito que você foi falar praquela amapoa do nosso plano pra se livrar dela, Semíramis!


- Ai, Gu, não posso mais amealhar carma negativo. Aliás, é por tanto carma negativo que a humanidade acumulou que agora estamos lidando com a covid-19. É tipo uma limpeza cósmica, uma prestação de contas com o universo.


- Mas agora a Regina vai querer se livrar da gente, você não vê? É só ela voltar da rodoviária pra onde foi levar a marafona que a gente tá na rua.


- Bom, eu vou picar a mula antes disso. Como só trouxe uma mochilinha mesmo, ponho no ombro e ainda aproveito pra fazer uma trilha.


- Mas e eu, mulher, e eu?


- Uai, se joga aos pés da Regina e pede perdão. Fala pra ela que perdão é sagrado pros cristãos.


- Então, já vou indo, Gu. Foi um prazer inenarrável trocar energias com você. Espero que a cigana Sara Kali não tenha te deixado traumatizado pro resto da vida. Amanhã é um novo dia. Namastê! Gratiluz! Fui.


Agora que estou livre desses três obsediados, vou ver se me purifico naquela cachoeira que vi no caminho quando estava vindo pra cá de carona com o caminhoneiro sagitariano bonitão. Se eu fizer uma meditação bem profunda, certeza que consigo me conectar aos elementais do lugar e, com alguma sorte, até aos extraterrestres que visitam estas paradas. Usarei também mantras para livrar a humanidade desse terrível perigo, que é o novo coronavírus e – cá entre nós – o Bozolino. Pedirei aos deuses todos pra nos livrarem do vírus e do verme. Ali na casa, evitei falar de política porque é baixo astral mesmo e pra não irritar a Regina, tão iludida, tadinha. Acredita em tudo quanto é fake news que o gabinete do ódio cria. Mas cada qual com o seu estágio de evolução, né? Olha lá a cachoeirinha, que linda! A bença, minha mãe Oxum, me dá licença de adentrar seu território.


A-do-rei! Deus é pai, não é padrasto! O Zé Povinho pulou fora com dor de consciência por causa do coronga. Eu dei meia volta que não sou trouxa. Uma foi bancar a São Francisco de pé descalço e a outra está colecionando cristal. Vão pela sombra, tá? Tchau, querida. Tchau, bicha! Agora sou eu e a minha deusa. Enfim, sós! Cheguei em casa, tirei toda a roupa, me meti na banheira com os sais de banho de Paris. Mara! Saí com uma toalha enrolada na cabeça e com o roupão de chambre que a patroa me deu de presente. Não é uma fofa? Lembrou de mim em plena pandemia de coronga. Bordado com monograma, bicha! Abri sozinha uma Möet Chandon. Três taças depois, ouvi a buzina do BMW da minha deusa chegando. Ela estava participando de uma carreata breguérrima. Todo mundo de verde e amarelo, gastando gasolina e protetor solar em apoio ao Mito. Que gente sem criatividade, Deus meu. Não se usa mais uniforme. Alguém avisa esse povo, por favor? A mulher chegou com meio metro de língua pra fora. Tomou a taça da minha mão e bebeu tudo como se tivesse saindo do deserto. Comemorou comigo a decisão do prefeito, eleito com a turbinada que Regina deu na reta final da campanha – Vai reabrir o shopping! Vamos voltar para a city na semana que vem. Eu, como uma fiel escudeira, disse “sim senhora” sem pestanejar. À noite, Regina teve febre. Febrão! A deusa molhou os três jogos Trousseau que troquei um após outro. Morri de pena. Esses lençóis custam o olho de cara. Algodão egípcio, meu bem! Pela manhã, Regina desembestou a tossir. Que coisa chata, né? Rico paga plano de saúde pra não ficar doente, comentei pra desanuviar. Acho que foi insolação. Isso que dá ir pra carreata meio-dia! Alôca! Me pediu então para levá-la ao hospital. Será que é o coronga?, perguntei sem querer. Quando a gente chegou, a rica foi atendida na hora. Ai deles se deixassem minha deusa tossindo como um vira-lata sarnento! Fiquei sabendo que Regina está na UTI. Está de coronga até a tampa! Ai, Senhor... Será que isso pega?! O que vai ser de mim? Bicha pobre não tem onde cair morta!


Estou de volta, inteira e mais forte que nunca. Por quê? Porque devo ter sido contaminada por uma daquelas duas ingratas, mas sobrevivi e agora estou imune. Plano de saúde Gold serve para quê, afinal? Estou livre dessa praga criada pelos chineses só para destruir o meu Mito. Agora todo foco é na destruição do Moro, aquele Judas traidor, comunista. Como é que pode? Não bastou o Mandetta querer aparecer mais que o meu presidente? Ora, convenhamos, esse juizeco que vá cuidar da biografia dele bem longe do Planalto. Ah... estou cansada, mas não é para menos. Primeiro foi o isolamento com as duas pobretonas implicando com o Gu e se jogando em cima dele. Olha, não que eu tivesse medo dessa história de Covid-19, mas achei um excelente pretexto para passar uns dias com amigas tão queridas, rir, comer, beber, fofocar, enfim. Uma pena que elas não entenderam nada. Na verdade, acabaram revelando um lado que eu não conhecia. Nunca havíamos passado tantos dias seguidos juntas, isoladas do resto mundo. Mas amizade é isso: se ficar perto por muito tempo, estraga, azeda. Nada nem ninguém se compara ao meu queridíssimo Sérgio Augusto. “Gu, vou ligar para as meninas para ver como estão, afinal, elas podem estar precisando de algo... Se tem uma coisa que eu não guardo é rancor. Envelhece, deixa marcas de expressão horríveis. Deus me livre! Iiih... Glaura não atende... ela saiu dizendo que ia se voluntariar para contribuir no combate à pandemia, lembra?... Oi, Glaura? Que voz é essa? Não é Glaura?... Meu Deus, não é possível, não posso acreditar”. Minha amiga foi contaminada e não resistiu. Morreu no leito da UTI ontem à noite. “Gu, ajuda aqui, por favor, liga pra Semíramis. Por onde andará aquela maluca?”. Ela deve estar flanando por aí ou no mundo da lua, como sempre. “O que foi, Gu? Fala, criatura! Semíramis também? Não, não... Que loucura é essa, misericórdia... Dá cá um abraço, Sérgio Augusto... O que é isso, Gu!? Você está ardendo em febre. Venha, vamos pro hospital que não há tempo a perder, juro que você não cai morta nem aqui nem na China. 

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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