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Divanize Carbonieri

Doutora em Letras pela Universidade de São Paulo e professora de literaturas de língua inglesa na Universidade Federal de Mato Grosso. É autora de Grande depósito de bugigangas (2018), selecionado no Edital de Fomento à Cultura de Cuiabá, e de Entraves (2017), vencedor do Prêmio Mato Grosso de Literatura na categoria Poesia. Foi finalista do Prêmio Off Flip 2018 (Poesia) e selecionada para a antologia poética no 3o Concurso Lamparina Pública em 2016. É uma das editoras da revista literária digital Ruído Manifesto.

O CONCRETO E O EVANESCENTE EM MARI GEMMA DE LA CRUZ

Mari Gemma De La Cruz é dessas artistas completas, que aliam experimentação estética com reflexão filosófica e (bio)política. Seus ensaios fotográficos não são apenas registros imagéticos de grande beleza. Eles também exprimem os questionamentos existenciais, sociais e ambientais de uma consciência incansável diante da realidade cambiante e caótica de nossos tempos. Nesse cenário, em que tudo se desmancha no ar, o que pode permanecer como gesto, visualidade e pensamento? É justamente no limite entre materialização e desaparecimento que se formam os verdadeiros manifestos assinados por ela e que dão vida à Pixé deste mês.


A problemática de gênero é uma das preocupações mais constantes de De La Cruz. Ao mesmo tempo em que são apresentadas cristalizações históricas em torno do corpo e do comportamento da mulher, como no ensaio “Peito de pedra”, também se maneja a dissolução de estereótipos femininos e masculinos, característica da revolução das identidades de gênero que invade a contemporaneidade. Na série “Movimento”, personagens dos grupos tradicionais de siriri e cururu são retratados de uma forma que vai além da celebração de sua indumentária e caracterização. Se, como acontece com a maioria das danças típicas regionais, tais ritmos mato-grossenses se baseiam em papéis bastante dessemelhantes para homens e mulheres, o olhar de De La Cruz opera na desconstrução dessa diferença bem marcada. Recortes e recombinações de fragmentos de imagem produzem ícones que subvertem a estabilidade do gênero, configurando um movimento que, mais do que os volteios da dança, sugere o trânsito das performances identitárias atuais. 


Mesmo em “Peito de pedra”, que tem como substrato esculturas em pedra de figuras femininas, calcadas no ideal de beleza clássica do Renascimento, a rigidez pétrea é quebrada por meio do uso de reflexos em fragmentos de espelhos. Mais uma vez o paradoxo entre solidificação e diluição surge na poética de De La Cruz, borrando os contornos que a padronização do belo impõe, sobretudo às formas femininas, mas também às obras de arte. Ainda nesse processo de estilhaçamento, autorretratos e retratos de outras mulheres se dissolvem por meio da técnica da longa exposição, o que permite que corpos de carne e osso, de existência tão concreta quanto as estátuas, pareçam também diáfanos e impermanentes, em consonância com a fragmentação das subjetividades que ocupam tais corpos. O seio da mulher, muitas vezes identificado pela cultura como uma das sedes da feminilidade, aparece, por sua vez, como um território contestado, sujeito a cortes cirúrgicos ou simbólicos que implodem qualquer tentativa de fixidez. O feminino, assim como o masculino, é aquilo que não se apreende completamente, aquilo que escapa a qualquer definição precisa.
São recorrentes os autorretratos na manifestação artística de De La Cruz, que, além de fotógrafa, se estabelece, dessa forma, como uma performer da imagem. A fotografia deixa de ser apenas suporte para se tornar vivência. Isso implica que um corpo cênico e uma subjetividade em processo se desdobram diante das lentes, emprestando significados existenciais à simples fruição estética. O corpo da performer, na maioria das vezes, não assoma em seu estado cru, mas se materializa envolto em tules, tecidos transparentes ou materiais plásticos. Tal envelopamento transforma o presente em ausente, o concreto em evanescente, o visível em oculto, o corpóreo em fluido. Continuidade e interrupção se alternam conforme se divisa ou se perde o corpo que se movimenta embaixo dessas camadas.


Na série “Mãe d’água”, terra, água e ar emprestam suas características para que o corpo humano se dissolva mais uma vez, assumindo formas que lembram outras existências. A coreografia executada sobre o rochedo diante do mar é uma encenação de voos e movimentações de aves marítimas. Mas a correspondência entre os gestos só se faz possível pela presença do vento e da água, que agitam e colam o tecido do invólucro à pele da performer. O pássaro, abrindo e fechando suas asas, se adivinha nessa combinação de elementos e maleabilidade. A gestualidade de qualquer animal parece repousar abaixo da superfície da experiência humana, podendo ser trazida para fora a qualquer momento. Ao contrário de uma visão hierarquizada, essa perspectiva enxerga o ser humano como parte de uma teia a interligar igualmente todas as espécies. O todo está dentro do um e o um está dentro do todo. Portanto, qualquer tentativa de destruição da natureza é, na verdade, uma autodestruição.


A consciência ambiental global se manifesta de forma ainda mais explícita no ensaio “Bolha temporal”. Dessa vez o corpo está coberto por uma extensão de plástico bolha, uma metáfora para a vida compartimentada que se experimenta hoje em dia. As novas tecnologias, com seus algoritmos cerceadores, permitem que as pessoas vivam dentro de verdadeiras bolhas sociais, compartilhando vivências e impressões apenas com aqueles que apresentam um perfil semelhante ao seu. O diferente, o oposto, o dissidente é eliminado das interações, o que acaba sufocando qualquer existência, condenada a ser encerrada em si mesma. Além disso, o plástico é um material que representa, talvez como nenhum outro, a destruição dos diversos ambientes e biossistemas, em virtude de levar séculos para se biodegradar. Nessa série, o cenário é mais uma vez uma cena marítima, e a espuma das ondas do mar se mistura ao aspecto bolhoso do envoltório. O borbulhar dinâmico da vida é posicionado em contraste com as bolhas artificiais e imutáveis do plástico. Assim como a bolha social sufoca o indivíduo, o lixo de embalagens plásticas asfixia a vida no mar, pondo em risco, por extensão, a vida em toda a terra. 


De La Cruz não propõe, dessa forma, uma experiência estética sem sobressaltos. Lirismo e angústia são as duas faces de seu empreendimento artístico. O olhar do espectador se enleva facilmente com a plasticidade bem elaborada de suas imagens. Porém, razão e emoção também são ativadas para a desconstrução de perspectivas normatizadas a respeito das identidades, existências, corpos e ambientações. O deslocamento de fronteiras surge ainda no seu procedimento de artista múltipla, que transita por diversos meios, como performance, fotografia, montagem, colagem, poesia e muitos outros, sempre que sejam necessários para a execução de seus projetos. E é justamente um recorte dessa criativa multiplicidade que é possível verificar agora nas páginas da Pixé de setembro.