Divanize Carbonieri
É doutora em letras pela USP e professora de literaturas de língua inglesa na UFMT. É autora dos livros de poesia “Entraves” (2017), agraciado com o Prêmio Mato Grosso de Literatura, e “Grande depósito de bugigangas” (2018), selecionado pelo Edital de Fomento à Cultura de Cuiabá/2017, além da coletânea de contos “Passagem estreita” (no prelo), selecionada pelo Edital Fundo 2019/Cuiabá 300 anos. No Prêmio Off Flip, foi segunda colocada na categoria conto na edição de 2019 e finalista na categoria poesia nas edições de 2018 e 2019. É uma das editoras da revista literária digital Ruído Manifesto e integra o coletivo Maria Taquara, ligado ao Mulherio das Letras - MT.

UM NÁUTILO

Quando ele surgiu do éter, eu já estava conformada com a minha situação. Tinha desistido de espernear e gritar por socorro. Ninguém iria me ajudar mesmo. Talvez fosse a palermice depois de tanta picada. O fato é que não me assustei com a sua carranca esverdeada boiando no ar. Afinal, não deixava de ser uma bela cor, igualzinha àquela do gramado em frente. Só achei insana a recomendação que me prescreveu. Mas quem era eu para julgar? É mister que Vossa Senhoria ingira quarenta copos de água a cada rada do dia. Primeira vez que se dirigem a mim com tal reverência, e o que vem a ser rada, meu Deus do céu? Isso nem falei em voz alta, mas ele já foi logo respondendo porque o danado ouvia pensamentos. Vinte e quatro são as horas de um intervalo diário, que, divididas por quatro, contabilizam seis. Cada um desses conjuntos constitui um rada. Hum, são dez copos por hora, não? Perfeitamente! Bastante coisa, e quando eu estiver dormindo? Adormecer Vossa Senhoria não deve nesse período de atribulações. Bom, antes de me enfiarem aqui, até era fácil não pregar o olho. Mas agora, com esse monte de amansa-louco que estão me dando, como fazer? O medicamento malsão não é para ser deglutido. Vossa Senhoria agirá bem se ocultá-lo na cavidade bucal e cuspi-lo assim que se encontrar desacompanhada. Em seguida, precisa proceder imediatamente ao consumo que estamos lhe indicando. E isso tudo para quê? Não sabia que água limpava loucura. Ora, mas é evidente que sim. Vossa Senhoria não se encontra versada nos atributos do solvente universal? Antídoto criado pelas forças da natureza para diluir todos os males que já existem e os que ainda serão forjados pelos seres humanos. Em breve, estará plenamente recuperada e poderá retornar à ativa, bem distante daqui. Então, assim transcorreram os eventos. Com a ajuda dele, passei a me esgueirar para fora do quarto e subtrair água do bebedouro em quantidades estratosféricas. Se não estava bebendo, estava urinando. Mas os enfermeiros viviam sobrecarregados e, como eu não fazia mais escarcéu, não viram nada preocupante. Deram-se por satisfeitos por não estarem tendo tanto trabalho. A felicidade que me invadia nem sei nomear. As cores do mundo foram clareando e clareando. Os sons também começaram a atingir frequências altíssimas, incapazes de ser detectadas por ouvidos normais. Tornava-me uma espécie de ciborgue, com os sentidos aguçados à enésima potência. Verdadeira super-heroína dos reinos aquáticos. Praticamente uma alga fosforescente a deslizar num oceano cintilando ao intenso sol do verão. Um náutilo de carapaça arredondada e raiada oscilando nas correntes que fluem pelo organismo da Grande Mãe. Até que ao longe ouvi vozes que pareciam conhecidas. Seriam sereias? Que roupa vamos colocar nela? Não, esse vestido é alegre demais para a ocasião. Não trouxe outra opção? O tailleur preto, mas será que não vai ficar com uma cara muito séria e envelhecida? Quero que as pessoas guardem uma boa imagem dela. Coitada, tão nova! Por que diabos foi inventar de engolir um mar?

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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