© 2019 - Revista Literária Pixé.

  • Facebook

Divanize Carbonieri

Doutora em Letras pela Universidade de São Paulo e professora de literaturas de língua inglesa na Universidade Federal de Mato Grosso. É autora de Grande depósito de bugigangas (2018), selecionado no Edital de Fomento à Cultura de Cuiabá, e de Entraves (2017), vencedor do Prêmio Mato Grosso de Literatura na categoria Poesia. Foi finalista do Prêmio Off Flip 2018 (Poesia) e selecionada para a antologia poética no 3o Concurso Lamparina Pública em 2016. É uma das editoras da revista literária digital Ruído Manifesto.

AS ESTRADAS TRILHADAS E NÃO TRILHADAS DE JONAS BARROS.

As estradas, esse imenso empreendimento da engenharia moderna, também são motivos recorrentes na arte. A impactante série fotográfica de Jonas Barros que dá vida a esta edição da Pixé dialoga, assim, com certos ícones da literatura. O primeiro caso que acorre à mente é o poema “The road not taken” (a estrada não trilhada) de Robert Frost. Os seus últimos versos resumem bem o que significa o processo de decisões e perdas que faz parte de todas as trajetórias humanas e que afinal nos torna únicos: “Two roads diverged in a wood, and I -/I took the one less traveled by,/And that has made all the difference” (duas estradas divergiam numa floresta e eu - eu peguei aquela menos trilhada [por outras pessoas] e isso fez toda a diferença). Outro exemplo vindo das literaturas de língua inglesa é o romance On the road (Pé na estrada na edição brasileira) de Jack Kerouac, lançado em 1957 e que talvez tenha sido o maior responsável, pelo menos na contemporaneidade, por fazer da viagem pelas estradas de um extenso país como os Estados Unidos uma experiência artística, (contra)cultural e até mesmo espiritual.


As fotos de Barros parecem estar imbuídas de sentidos semelhantes, trazendo obviamente a especificidade do contexto brasileiro. São imagens que refletem certas decisões tomadas em nome da coletividade e que possivelmente tenham acarretado mais perdas do que ganhos. De certa forma, também são o registro de um “eu” que percorre solitariamente os caminhos nacionais e se indaga a respeito dessas escolhas em episódios de uma jornada existencial, mas ao mesmo tempo política. Numa nação em que o lema dos dirigentes já foi “governar é abrir estradas”, não é incomum a crença de que asfalto é sinônimo de desenvolvimento. Tal perspectiva não nos poupou de verdadeiros desastres sociais e ambientais, como a construção da Rodovia Transamazônica, inaugurada em 1972, mas que até hoje encontra-se inacabada, tornando-se um pesadelo para os caminhoneiros que transitam por ela. Além disso, a sua sofrível pavimentação ainda está manchada com o sangue das populações indígenas que foram exterminadas para que suas terras dessem lugar ao descontrolado projeto expansionista dos militares. E, consequentemente, também se comprometeu a existência de diversas espécies nativas da flora e da fauna da região.


O viajante de Barros, plasmado na sombra alongada do ciclista presente numa das fotos, parece estar ciente de todas essas perdas. O seu é um olhar irônico e ao mesmo tempo pesaroso. Os registros que realiza não são aleatórios ou celebratórios de uma identidade nacional associada à ideia autoengrandecedora de progresso rodoviário. Ao contrário, o que se percebe é uma visão crítica e nada indulgente, lançando luzes sobre profundas contradições e resultados nefastos. Nesse sentido, as placas com dizeres preservacionistas são mostradas, de fato, como painéis da nossa decadência. Uma delas ocupa quase todo o espaço da fotografia, tornando possível divisar as rachaduras em sua pintura. “Preservar o meio ambiente é dever de todos” surge, então, como uma máxima corroída pela realidade, pelo exercício diário de ações que mais destroem do que conservam. O mesmo acontece com o signo da bicicleta pintado no chão, provavelmente de uma ciclovia, confrontado com a calota real de um veículo. Abstração e materialidade estabelecem, juntas, uma composição metonímica e alegórica da predileção por carros e da violência no trânsito, que já custaram a vida de muitos ciclistas e pedestres.


Outra placa que aparece amassada conclama os motoristas para que não atropelem os animais que vivem à beira das estradas. A sua própria deformação já é sinal de que o apelo não está sendo atendido, afinal tal estrago só pode ter sido causado por um veículo em alta velocidade que tenha ultrapassado os limites da via. Mas o estradeiro de Barros não se contenta com isso. Cadáveres de animais também são apresentados, inclusive com o foco nos olhos vidrados e línguas expostas resultantes de sua morte violenta e possivelmente dolorosa, causada por colisões com rodas e latarias. Esses sacrifícios são inclusive naturalizados na mentalidade dominante, como se fossem inevitáveis no processo de desenvolvimento. Porém, outras nações encontraram alternativas para evitar ou minimizar a matança de vida silvestre, como, por exemplo, a construção de túneis laterais correndo abaixo da superfície das rodovias. O Brasil até o momento parece simplesmente não pensar nisso e tomar como irrelevantes tantas perdas cotidianas.


O desmatamento também não tem sua importância verdadeiramente reconhecida. As largas toras de madeira fotografadas nas carrocerias dos caminhões desvelam a derrubada de antigas árvores e a destruição de significativos biomas brasileiros. Até onde nos levará tal dispêndio de recursos naturais? Não chegará o momento em que o seu esgotamento implicará também o esgotamento de qualquer crescimento? Os pneus fumegantes dos caminhões usados para transportar a maior parte da carga no país incendeiam a possibilidade de se investir em outras soluções menos destrutivas. “Sem caminhão, o Brasil para”, outro lema da identidade nacional, constitui certamente uma verdade, mas uma verdade que foi estabelecida por decisões políticas. Não é algo incontestável ou imutável. Outras escolhas poderiam nos conduzir por outras estradas (ferroviárias, fluviais) menos trilhadas e isso faria toda a diferença. São essas algumas das muitas reflexões suscitadas pela série agora exposta por Barros nas páginas da Pixé.