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Divanize Carbonieri  
é doutora em letras e professora de literaturas de língua inglesa na UFMT. É autora dos livros de poemas Entraves (2017), Grande depósito de bugigangas (2018), A ossatura do rinoceronte (no prelo) e Furagem (no prelo), além da coletânea de contos Passagem estreita (2019).

PIXÉ – Ética ou estética – o que mais importa na literatura?

DIVANIZE CARBONIERI – As duas coisas acabam sempre imbricadas. Não dá para separar. Mas elas nem sempre coincidem. Você pode ter uma obra bem realizada esteticamente, mas problemática em termos éticos, por exemplo, uma obra que defenda a inferiorização de algum grupo humano. Não que retrate essa inferiorização simplesmente (porque o retrato pode ser uma forma de denúncia), mas que a defenda de alguma forma. Eu acho que é possível ler uma obra dessas de forma crítica, se você tem a formação necessária para isso. Para as/os jovens leitoras/es, pode ser mais complicado. Talvez elas/es precisem de alguma orientação prévia, que a escola deveria dar, mas nem sempre é capaz. Se um livro tem ideias francamente racistas, talvez seja melhor escolher outro para apresentar, com fins didáticos, a crianças e jovens. Um livro que possibilite que uma imagem mais positiva seja formada da própria identidade e dos grupos aos quais se pertence. Não é o caso de banir autora ou autor nenhum. Nas livrarias e bibliotecas, o livro pode ser adquirido ou lido por quem quiser. Porém, na educação, certas questões têm que ser colocadas primeiro: a leitura dessa obra pode prejudicar de alguma forma a autoimagem das crianças e jovens? Se a resposta for sim e, se não for feito nenhum trabalho crítico, é melhor deixar de lado e escolher outra.

 

PIXÉ – Tudo indica que o corpo é sua grande matéria-prima. Desde Entraves, há imagens do corpo quase sempre ligadas à decadência. Talvez seja um recorte específico que ocorra ao leitor. O corpo morto do elefante, a epiderme sempre hostil, o corpo velho, flácido, metamorfoseado. Até mesmo um corpo equivocado, incapaz de se equilibrar. Corpo que se machuca, se mutila, se boicota como no Grande Depósito de Bugigangas. Agora, vem Nojo. Temos aí um contraponto ao padrão atual de beleza?

DIVANIZE CARBONIERI – Talvez em cada livro meu exista um retrato diferente do corpo, uma faceta. Não consigo pensar assim numa imagem homogênea, embora concorde que é um tema recorrente na minha escrita. Só não sei se é sempre com o mesmo viés. Provavelmente não. Em Entraves, principalmente, aparece muito a questão da morte, da finitude, o fato de que tudo se acaba. Tudo exatamente não. Pode ser que algo permaneça, mesmo que a gente nunca vá ter certeza disso. Então, nesse meu primeiro livro, acho que surge vez ou outra essa ideia: o espírito – na falta de um termo melhor – pode sobreviver ao corpo e se libertar da limitação imposta por ele? Em A ossatura do rinoceronte, eu explorei isso mais um pouco, tentando investigar essa ideia do osso como o que permanece de um ser vivo depois de extinto. E, com os desenvolvimentos da ciência, descobriu-se que o osso é uma espécie de arquivo de tudo o que aquele animal foi. Tudo não, mais uma vez. Algo não está registrado no osso, o sonho e o desejo, por exemplo. As ideias. Para onde tudo isso foi? Em Passagem estreita e Nojo, por sua vez, acredito que a abordagem é diferente. É mais política, talvez. O grande problema do corpo não é o corpo em si, mas o fato de ele servir como parâmetro de julgamento entre as pessoas. E o julgamento sobre o corpo serve muitas vezes como instrumento para inferiorizar seres humanos, oprimi-los. Esses livros interrogam tal questão, no meu modo de ver.

 

PIXÉ – Não se trata apenas de beleza. Importa refletir sobre saúde. Não se trata de uma opinião crítica, mas de comprovação científica. O corpo que oscila nos extremos tem mais chance de se encontrar doente. No curso do contemporâneo questionamento do padrão “Vogue” e do combate à gordofobia, não é importante afirmar que um padrão de consumo responsável pela obesidade (por exemplo) é condenável? Ou podemos acreditar que o corpo volta a ser indevassável, insuscetível de crítica?

DIVANIZE CARBONIERI – A gordofobia vem sempre revestida de supostas preocupações com a saúde. A saúde de todas/os nós é frágil. Ninguém fica completamente saudável o tempo inteiro. Isso porque o corpo se deteriora com o tempo. A maioria de nós não toma água o suficiente, não se exercita o suficiente, não dorme o suficiente. Alguns fumam e bebem bem além da conta. Alguns se exercitam demais, o que também é um problema, utilizam substâncias para permanecer magros ou desenvolver músculos, substâncias que são muitas vezes mais danosas do que uma mera barra de chocolate. Então, hábitos não saudáveis são comuns na maioria das pessoas. Usar essa justificativa para atacar as pessoas gordas é, na verdade, crueldade pura e simples e opressão. Essa opressão é imposta principalmente sobre as mulheres (embora homens gordos também a sofram). A nossa sociedade tem intricados mecanismos de controle sobre as mulheres. O patriarcado teme as mulheres porque, se mulheres e homens finalmente se equiparam, quem exerceu o poder até agora fica ameaçado. A questão da aparência e do peso é uma forma de controlar mulheres. Eu sou uma mulher que desistiu de ficar magra. Não faço mais dietas, não estou interessada em medicamentos ou procedimentos que emagrecem. Então, o tempo e a energia que eu usaria nessas coisas eu aplico em outras, como escrever, por exemplo. E uma mulher que escreve é sempre uma ameaça ao patriarcado. Já pensou se todas as mulheres parassem de destinar tanta energia, tempo e dinheiro para emagrecer ou em cosméticos inúteis e se dedicassem à política, por exemplo? A ameaça que não ia ser? Então, o patriarcado e o capitalismo vendem essa ideia de que é obrigação de uma mulher fazer tudo para emagrecer ou ficar mais bonita.

 

PIXÉ – Por outro lado, convém lembrar sempre Foucault com suas teorias sobre a disciplina do corpo. Você acredita que, de certa forma, a literatura prestou-se a institucionalizar um modelo cuja ortopedia condicionou a recepção estética sobre o corpo?

DIVANIZE CARBONIERI – A literatura reflete a assimetria que existe na própria sociedade. Até hoje, a literatura cânonica é aquela escrita por homens brancos, cisgêneros, heterossexuais, de classe média ou alta. Chamamos de universal uma literatura que, na verdade, representa a perspectiva de um grupo bem específico. Esse grupo é marcado por esse corpo. O corpo que aparece nessa literatura é esse. Os corpos que têm outras marcas, outras raças, etnias, sexo, gênero, orientação sexual são, quando muito, vistos como objetos (ou abjetos). Mas e se eles se tornassem sujeitos da literatura (como de fato vêm se tornando e se impondo cada vez mais)? Teríamos assim perspectivas mais diversas, mais próximas da complexidade que realmente existe no mundo. Então, é extremamente benéfico que pessoas de corpos diferentes, pertencentes a grupos diferentes, escrevam, sejam publicadas, lidas e estudadas. Assim, todas/os aprendem um pouco mais sobre a rica experiência do ser humano neste planeta.

 

PIXÉ – O tormento com o corpo ganha dimensões inovadoras na sua produção. Seja a partir de uma visão externa, seja a partir da narrativa em primeira pessoa, o corpo é sempre objeto de reflexão. Você acredita que esse profundo descontentamento leva ao paradoxo tão intenso capaz de provocar depressão? De outro lado, se os seus personagens alcançassem a reforma do corpo, não seria isso um esvaziamento de inspiração? Em resumo: é pelo sofrimento dos personagens que se realizam autora e leitores?

DIVANIZE CARBONIERI – Acho que o que leva à depressão é o mundo em que nós vivemos. Uma pessoa realmente saudável vai se deprimir em alguma medida com esse mundo. Não tem como evitar. Um mundo que aceitasse mais as pessoas como elas são, que não exercesse tanto julgamento sobre elas, principalmente partindo da condição de seus corpos, seria talvez um mundo com menos depressão. Embora a morte e a perda sempre vão existir, e é essa constatação que talvez seja a mais deprimente de todas. Magras/os ou gordas/os, ninguém escapa da morte e da perda. Como não se deprimir com isso? O corpo é maleável e transformável, mas até certo ponto. Impor sobre as pessoas a obrigação de “reformarem” seus corpos para ser aceitas é opressão novamente. A natureza gosta da diversidade, gosta até demais, porque está sempre criando indivíduos diferentes, mas o ser humano quer que todos sejam iguais, vivam de acordo com padrões. Não dá certo. Era melhor que nós aprendêssemos a aceitar as diferenças. As pessoas seriam menos infelizes assim.

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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