36.png

Dante Gatto
Natural de São Paulo-SP, professor aposentado da UFMT e da UNEMAT, colaborador do Programa de Pós-graduação de Estudos Literários. Escreveu e acompanhou a montagem de seis peças de teatro: Os vencidos (1985); A noite dentro da noite (1986); A Criação literária (1988); Amar, verbo intransitivo - adaptação (1995); Retorno ao futuro: a semana de 22 (1996) e A voz do povo: 500 anos de história (2000). A peça A noite dentro da noite, em 1990, recebeu o Prêmio “Textos inéditos do interior. Ano 90” do Projeto “Oswald de Andrade de Dramaturgia”, promovido pela Secretaria do Estado da Cultura de São Paulo. Publicou três livros de poemas: Poesias (1980); Unimultiplicidade poética (2005) e A Ferida e outros poemas (2015). Publicou vários prefácios e poemas premiados em diversos concursos literários.

A VINGANÇA DAS ERVILHAS

Caro leitor, “há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia”, tanto no reino da Dinamarca como no planalto central do Brasil. Parodiando aquele célebre personagem de Suassuna: não tenho provas, mas sei que foi assim. São mais que meras convicções! Bem, Aristóteles já nos lembrava, em sua Poética, que é verossímil que aconteçam coisas inverossímeis. Pois é, aconteceu mesmo e foi assim como vou lhes contar.


O fenômeno se deu durante um almoço em Brasília, no lago sul, em que estiveram presentes políticos e militares, reunidos pela predisposição à religiosidade e ao conservadorismo: Deus, Pátria, família. Na época, se anunciava levemente a onda fascista que viria resultar no impeachment de Rousseff. A combinação Deus e família tradicional tem, como todos sabemos, uma dose robusta de misoginia. Quase escrevi “dose cavalar”, mas fiquei com medo de ter que me explicar com os cavalos. Pois é, fontes fidedignas me relataram que entre risadas e orgias palatais alguém pejorativamente falou em alto e bom som dos “cérebros de ervilha” ali presentes. Todos riram e riram, mas as ervilhas não perdoaram e elas estavam por toda a parte: na maionese, no molho do penne parisiense, no risoto de frango ao curry e no guisado com lentilhas que, também, olharam para as ervilhas com ironia.

 

O problema do universo zumbi já era calamidade entre as ervilhas com mais clareza do que na nossa realidade, mais atingidas que foram elas pelos agrotóxicos. Foi nesse contexto, num ambiente copioso também de fanatismo, que elas optaram em concentrar as ervilhas zumbis, sem possibilidade de cura, num exército contra a humanidade. Campos de concentração tinham sido constituídos para abriga-las. A história é um fenômeno cíclico.


Os primeiros lotes distribuídos, em pacotes de 200 gramas, apelavam a nossa apreciação à organicidade e saúde: “Pisum sativum orgânicas”, exibia o pacote de papel reciclável. Não deu certo, para espanto da junta científica das leguminosas organizadoras do projeto. Foi sintonizando-se mais com a realidade humana brasileira de consumidores que criaram a linha de ervilhas zumbis que imitavam alimentos industrializados: “ervilhas sabor galinha”, “ervilhas sabor churrasco” etc. Embalagem de plástico ordinário, fácil de abrir. Foi um sucesso escandaloso. Inclusive, houve até lotes que escancaravam o interior do cavalo de Tróia: “ervilhas zumbis sabor bacon”. Eram rosadinhas. Vermelho, jamais.


O efeito foi devastador a ponto de deixar qualquer ervilha de cabelo em pé, se fosse o caso. Houve uma acentuada limitação cognitiva, dissonância mesmo, nas vítimas. As ervilhas zumbis destruíam os neurônios da vítima, que foram reduzidas a um maniqueísmo radical, raso e extremamente dicotômico e se contentavam com respostas prontas para qualquer pergunta. Ficou famoso, então, o bordão “mas e o PeTe?” no sentido de justificar qualquer sandice que fosse e a conivência com o mal escancarado. A esquerda foi reduzida em um único pacote: “comunistas”! Aliás, qualquer pessoa ou entidade que não rezasse pela cartilha do tresloucado líder da histeria coletiva nacional. 


A camada social que deveria sofrer o impacto destrutivo seria a elite, segundo projeto original, mas a coisa caiu com intensidade nas massas mais desprovidas de recursos, criando o fenômeno esdrúxulo do pobre de direita, coisa de dar inveja a qualquer líder fascista de qualquer republiqueta de bananas. Ora, a revolução para massacrar os podres seria sustentada pelas próprias vítimas. Bem, não havia mais o que fazer com nossas elites, retrógradas desde sempre. Como resultado, em 2018, alçou ao cargo máximo de nossa democracia representativa uma criatura indigna do voto de um cidadão, mas as ervilhas não se deram, bem, também, porque a liberação de agrotóxicos rolou solta, como nunca antes, aumentando-lhes a população de zumbis.


Sobre o peso das palavras não mais preciso argumentar com as senhoras e senhores. Ora, hoje ninguém atira mais o pau no gato, impunemente. Medimos nosso discurso com a régua do politicamente correto, não é verdade? E bem verdade, também, que na dialética desse processo surgiu os defensores de que tudo é “mimimi”. Ora, sem dúvida cérebros atingidos pelas ervilhas zumbis, também. Frágeis mentes reducionistas. Tempos de tensão, do saudosismo grotesco de uma unidade para sempre perdida, da hegemonia do macho, adulto, branco, hetero e profundamente especista.

Cuidado com as palavras: as paredes têm ouvidos e as leguminosas também.

© 2019 - Revista Literária Pixé.

  • Facebook