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Danilo Fochesatto

Possui graduação em Tecnólogo em Processamento de Dados pelo Centro Universitário de Várzea Grande (2002) e Bacharelado em Direito pela Universidade de Cuiabá (2016), devidamente inscrito na OAB, seccional Mato Grosso. Tornou-se, em 2013, servidor da Universidade Federal de Mato Grosso - UFMT e, a partir de 2015, passou a atuar no Escritório de Inovação Tecnológica - EIT. Atualmente é mestrando do PROFNIT - Programa de Pós-Graduação em Propriedade Intelectual e Transferência de Tecnologia para a Inovação.

TODO O PODER EMANA DO POVO

Procurando por uma sombra calma que atenuasse a autoridade desagradável do sol, conheci, para minha surpresa, um verdadeiro homem do povo: um fotógrafo. Conversamos um pouco, e, para tentar entender a louca estrutura do formigueiro humano, decidimos flanar pela cidade gastando nosso latim. Após algumas digressões biológicas e incursões gastronômicas entremeadas por cliques antropológicos, resolvemos terminar o passeio com um belo e revigorante trago. Estourando buquês engarrafados para florescer sorrisos, observei, na mesa ao lado, as ações de um homem das letras. Ele tentava, a todo custo, de modo construtivo, formar par com a mocinha cromossomicamente mais bem-feitinha daquela paróquia alcoólica. Notei, ainda, que o sujeito estava devidamente armado: disparava feito o Robin Hood dos versos; furtava lirismo dos ricos poetas brasileiros e, sem reservas, doava tudo ao seu pobre amor: a deusa na cadeira adjacente que embelezava o ambiente impregnado de feiura masculina.


Deu-se que, entre uns e outros desvios de rumo dos copos, meu cérebro resgatou deslembranças. Em específico, o Dia Mundial do Pulo: um flash mob que pretendia deslocar a terra da órbita atual mediante a mobilização de milhões de pessoas para pularem simultaneamente em data e hora avençadas. Submeti a temática ao escrutínio de meu acompanhante. Após razoável reflexão, o fotógrafo concluiu que a medida poderia ser mais bem aplicada. Para tal, toda a população, já cansada de ter dúvidas e de esperar as místicas trombetas do juízo final, deveria se mobilizar a fim de solucionar tamanho impasse histórico. Assim, nos moldes daquela intervenção, o planeta inteiro ergueria as mãos ao céu e, de coração aberto, clamaria pela aparição de alguma divindade legisladora. A intenção era tão clara quanto simples: coação mundial irresistível para provocar eventual criador a dar algum sinal, e, por conseguinte, acabar de uma vez por todas com o mistério que envolve o desaparecimento do poder constituinte originário. Batizamos o referido evento de Dia do Grande Desapontamento.