Daísa Rizzotto Rossetto 
Tudo ou nada do que sou está no que escrevo. Nada além… ou, entre os rótulos: estudante de Literatura em Portugal, interessada em mulheres e animais (não-humanos) na literatura; curiosa, vegana, feminista, viajante e viajona.

QUARTO VAZIO

Apaguei as últimas palavras desconhecidas no livro. Assoprei as migalhas de borracha.


Escrevi poucas linhas e fechei o caderno vermelho.


Deixei o copo na porta. Havia menos, ainda era menos de um gole o que esperava no fundo.


Minha cabeça acostumada a girar não girava.


Entrei e fechei a porta. Apaguei a luz. Tirei a roupa. Fechei os olhos.


Abri os olhos.


Fechei os olhos e todo corpo era frio.


As mãos paradas no ar. As unhas sem arranhar as pernas, os riscos e cortes, hematomas que não doem mais. A pele seca, a água parada numa garrafa velha. Um gargalo de onde não tomo.


…Os idiomas que não pronuncio na minha boca.


Deitei com o breu noturno de um quarto escuro.


Tudo era frio e uma música tocava no ouvido direito, o sol deitando atrás e todo o quarto ficando cheio de frio. Escuro… Cheio do pouco de mim…


Na borda do copo um pedaço da minha palavra. Na minha boca qualquer coisa em falta… O rosto quente e invisível. As voltas já feitas desfeitas na cabeça.


Era meu o rosto invisível, apagado nas palavras de um livro azul. Apagadas todas as palavras riscadas nas semanas anteriores.


Tirei a roupa sem notar que a escuridão me tocava sem fazer barulho. A escuridão de um quarto vazio e as palavras apagadas…


Eu quase percebi que era meu… Era meu o rosto que não existiu na escuridão sem voz que tocou a palavra escrita no meu corpo escuro em um quarto vazio…

 

Setembro, 2019

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