Cristina Campos
Doutora em Educação (USP, 2007); mestra em Educação (UFMT, 1999); especialista em Língua Portuguesa (UFMT, 1989), Semiótica (UFMT, 1995) e Semiótica da Cultura (UFMT, 1996). Professora aposentada de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, pelo IFMT – Campus Cuiabá. Ocupa a Cadeira 16 na Academia Mato-grossense de Letras. É autora das seguintes obras: Pantanal mato-grossense: o semantismo das águas profundas (Cuiabá: Entrelinhas, 2004), Conferência no Cerrado (Tanta Tinta, 2008), Manoel de Barros: o demiurgo das terras encharcadas (Carlini & Caniato, 2010), O falar cuiabano (Carlini & Caniato, 2014), Bicho-grilo (Carlini & Caniato, 2016) e Papo cabeça de criança travessa (Tanta Tinta, 2017).

O COQUEIRO DO SEO JOÃO

No final dos anos 1960, seo João morava numa chácara de mais ou menos 1 hectare, no Coxipó da Ponte, distrito de Cuiabá. Era um belo casarão antigo, de estilo colonial, circundado por uma grande varanda, um tanto recuado de uma ruinha de terra e dela separado por uma cerca de cinco fios de arame farpado fixos em paus de aroeira. O portão de madeira trancado com cadeado só se abria para os raríssimos veículos que visitavam a propriedade e um portãozinho com cancela permitia a entrada e saída de pessoas, principalmente seo João, sua mulher e o caseiro, que dava duro na lida para manter limpo e plantado o local, repleto de frondosas árvores frutíferas.


Apesar de paralelo à rua Barão do Rio Branco, hoje av. Fernando Correa, o lugar era por demais tranquilo, exceto no horário em que as escolas recolhiam e soltavam os alunos, a subir e descer a rua em bandos tagarelas como periquitos no arrozal no caminho da escola e de volta às suas casas.


Seo João era caprichoso com a chácara: cultivava muitas árvores, flores e folhagens, como samambaias e avencas. Na linha de frente da casa, entre a cerca e a rua, havia uma bocaiuveira alta, daquelas que davam umas bocaiuvonas bem sem-graças.


Certo dia, seo João balançava-se em sua cadeira de urubamba na varanda esperando a esposa chamá-lo para almoçar quando um grupo de cinco meninos com uniforme do Souza Bandeira – que, naquela época, funcionava num casarão imponente de esquina em frente à igreja Nossa Senhora da Guia, vulgo Colégio das Freiras –, vinha passando bem animado em frente ao casarão. Um deles gritou:


— Bom dia, seo João do Coqueiro!


E os outros quatro, em coro, repetiram:


— Bom dia, seo João do Coqueiro!


O velho, que tinha fama de neurastênico, ficou furioso.


No dia seguinte, no mesmo horário, repetiram juntos e bem alto, em bando superlativo, o coro:


— Bom-dia-seo-João-do-Co-quei-ro!!! — no que ele se levantou da cadeira para correr atrás dos moleques e lhes dar uma bronca de manutenção ou coça que os pais ficaram devendo em sua educação, eles já tinham disparado numa desabalada carreira rumo à antiga ponte de ferro do rio Coxipó, aos gritos e risadas.


Seo João, então, chamou Dito Preá, o caseiro, e lhe ordenou:


— Hoje mesmo quero que você corte esta bocaiuveira, que não presta pra nada mesmo!

 

Obediente, Ditão derrubou no machado o tal coqueiro.

 

— Quero ver essa molecada debicar de mim agora! — comentou, satisfeito, o velho. E, no dia seguinte, fez questão de esperar sentado em sua cadeira de balanço os guris, no horário habitual.

 

Ao descerem o morro, avistaram a árvore tombada. Cochicharam entre si e, diante da casa, gritaram em uníssono:— Bom dia, seo João do Toco!


O velho bradou um palavrão e gesticulou uma banana pros moleques, que gargalharam e correram, o que se tornou seu hábito diário, a cena repetindo-se por toda a semana, até a sexta-feira.


Já não aguentando mais tanto debique, o ranzinza chamou o caseiro e mandou:


— Neste final de semana, quero que você corte ainda mais o toco, bote querosene e meta fogo nesse diacho, até sumir a raiz! — Dito Preá, como sempre, obedeceu e sumiu com os restos mortais da árvore decepada. No lugar, apenas uma cova enegrecida sinalizava que ali houvera uma linda bocaiuveira que não prestava pra nada mesmo, além de dar pouso às araras e papagaios que ali vinham descansar e comer coquinhos.


— Acho que, agora, estou livre desse bando de sem-vergonhas mal-educados! — ruminou o velho.


Na segunda-feira, quase meio-dia, ouviu o grito:


— Bom dia, seo João do Buraco!


Dito Preá não compreendia por que o patrão dava tanta importância à gozação da criançada, mas não disse nada – o velho era bravo como o capeta. Naquele dia, ficou preocupado, porque seo João primeiro ficou vermelho como uma pimenta, depois branco como papel e se fechou. Não quis nem almoçar. Decidiu resolver pessoalmente o problema: pegou carrinho de mão, enxada e pá, encheu-o de uma boa terra preta da beira do rio, misturou-a com folhas secas de goiabeiras do quintal que catou do chão e tampou ca-pri-cha-da-men-te o buraco. Depois, transplantou folhagens e flores, espada-de-são-jorge, comigo-ninguém-pode, umas marias-sem-vergonhas brancas e antúrios, por toda a extensão da cerca, e aguou bem. No fim da tarde, o trabalho estava concluído – já não havia nenhum vestígio da bocaiuveira.


Matou o problema a pau, ou melhor, matou o pau para resolver o problema.


No dia seguinte, ao quase meio-dia...


— Bom dia, seo João do Buraco Tampado!

© 2019 - Revista Literária Pixé.

  • Facebook