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Cristina Campos
É doutora em Educação (USP, 2007); mestra em Educação (UFMT, 1999); especialista em Língua Portuguesa (UFMT, 1989), Semiótica (UFMT, 1995) e Semiótica da Cultura (UFMT, 1996). Professora aposentada de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, pelo IFMT – Campus Cuiabá. Ocupa a Cadeira 16 na Academia Mato-grossense de Letras. É autora das seguintes obras: Pantanal mato-grossense: o semantismo das águas profundas (Cuiabá: Entrelinhas, 2004), Conferência no Cerrado (Tanta Tinta, 2008), Manoel de Barros: o demiurgo das terras encharcadas (Carlini & Caniato, 2010), O falar cuiabano (Carlini & Caniato, 2014), Bicho-grilo (Carlini & Caniato, 2016) e Papo cabeça de criança travessa (Tanta Tinta, 2017).

AH, O CORPO!

“Cárcere de argila” de um “pássaro de fogo”.
Supervalorizado, presta-se a transformações: põem botox, piercings, silicone, chips, carimbam tatuagens na pele que bronzeiam, lagartixas sob o sol, ou clareiam com remédios e cremes, mutantes reptilianos lambuzados recém-saídos de casulos arrastando-se na cama-lama da sandice.
Incisões cirúrgicas constroem verdadeiras esculturas: fazem lipo, põem silico, esticam, cortam, incham, encolhem, pregam e repregam até o fiofó. Os cabelos são cortados, alisados, engrenhados, coloridos, branqueados, comportados, assimétricos, postos na régua da moda e raramente alinhados com o espírito do tempo.
Maquiam de leve o rosto ou nele aplicam massa corrida pra esconder ou disfarçar imperfeições; depois, fazem arte: cores e brilhos, traços e formas em devires animais, espaciais, especiais... Usam brincos, colares, pulseiras, correntes, cintos, gravatas, algemas, joias e/ou bugigangas, adereços mil que acrescentam peso ao olhar que o contempla embasbacado – o corpo reflete um tempo qualquer que se queira indiciar.
O corpo é templo: ninja, surfista, praticante de Parkour, samurai, iogue, monge Shaolin flexíveis, precisos, infalíveis e fortes mostram o que é ser mestre.
Mas o corpo também é porco. Ultrajado, violado, vendido, largado, faminto de pão e espírito. As escaras da escória provocam os brios do operário padrão, que tapa o nariz e finge que não enxerga o que é de sua conta: a turba miserável avultando-se nas ruas, mãos e olhos estendidos para o vácuo.
Sob o tempo, em tempo, o corpo se transforma enrugando-se uva-passa e se rende à gravidade: despenca, erode, vira pó, desvanece-se – o temido nada é alvo infalível. C’est fini. Sem epitáfio.

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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