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CAFÉ

Dê-me café,
Quero escrever.

Uma xícara desse tônico
E terei forças renovadas,
Encontrarei a palavra perdida
Que caiu como folha
Da árvore da vida.

Dê-me café,
Quero escrever.

Sou aristocrata,
Poeta,
Basta o aroma
E cantarei a luta de amor e fé
Nesta página aberta.

Dê-me café,
Quero escrever.

Estímulo para  meu cérebro,
Investigarei pensamentos,
Sentimentos,
Decretos divinos
E registrarei tudo
Com dedos ágeis sobre as teclas.

Dê-me café,
Quero escrever.

Um pouco mais
Dessa infusão das Arábias
E não terei mais sono,
Revelarei segredos,
Juntarei letras em estranhas galáxias
E mergulharei num outro universo.

Dê-me café,
Quero escrever
Até morrer.

Raquel Naveira

Escritora, poeta, professora com formação em Direito e em Letras, Mestre em Comunicação e Letras, membro do PEN CLUBE DO BRASIL e Vice-Presidente da Academia sul-Mato-Grossense de Letras.

Impressa para sempre
Uma cicatriz,
Uma marca,
Uma fibra
Acima do olho.

Nem sei como foi,
O que fiz:
Uma queda,
Um delírio,
O fio cortante
De sangue
Até a raiz.

Algo me empurrou contra a parede:
Uma força,
Um descuido,
Uma palavra infeliz.

E agora
O que estava dentro de mim,
Oculto,
Virou traço exposto
Em meu rosto,
Um dano,
Que me aperta a alma
E a cerviz.
Será duradoura 
A lembrança
De tanta ofensa,
De tanta afronta
Que recebo do mundo
E que me têm tornado infeliz.

O tempo tirará a dor,
Firmará a chaga,
Eu sei,
Seca, seca,
Ficará a cicatriz.
 

CICATRIZ

Quando foi que a lama se transformou em alma?
Era tudo brejo,
Terra agitada,
Fermentada
E plástica,
Solo palpitando de bolhas,
De larvas,
De insetos,
Rabinhos com olhos de feto
E vieram o sopro,
O ar nos pulmões,
A vida pelo sangue,
Pelo fígado,
Pela medula e ossos,
Pulsando quente
Como chama.

Quando foi que a alma se transformou em lama?
Era tudo espírito,
Energia,
Fio de prata,
Palavras e gestos,
Imagens que brotavam
Do intelecto,
De uma fonte de amor
Luminosa e intacta
E vieram os desejos,
As paixões,
As trevas,
A ausência de sombra
E a alma rolou no lodo,
Vagando 
Como um fantasma.

Corpo nu,
Contaminado,
Enterrado na lama,
Tumor que lateja
Coberto de lesmas,
Lêndeas
E gosmas;
De repente, as águas da chuva
Lavam o corpo
E da boca 
Sai uma borboleta.

Lama e alma,
Apenas uma asa,
Uma letra.

ALMA E LAMA