© 2019 - Revista Literária Pixé.

  • Facebook
AO HOMEM QUE EU NÃO CUMPRIMENTEI NA RUA

desculpe a pessoalidade da vida
os barulhos da cidade, o sono ruim
os dias curvos exigindo novas percepções
algo ali entre o paladar e a aceleração
fotos suas jamais reveladas a você
eu vi o eu-você dele, plenamente, creio eu
a cara cansada de uma vida alegre e mal dormida 
educação ímpar, gestos raramente alcançados
se ajustou de leve - só vi através da outra visão – 
lembrei de todas as vezes que esbarramos na rua 
aquele olhar transmutado em criança ou menina 
homem, vendedor, mãe
daquele cheiro rosa evaporando dos bueiros
do assoalho seboso e da maçaneta sebosa dos lares 
nos trai como a roupa quando mostra sem querer 
havia muita verdade e havia muita mentira
cada uma com sua porosidade
- nesse momento eu pensava na lista de compras –
 não me restam dúvidas quando lembro
seu espírito? não havia nem eu ali!
uma máquina bondosa e vingativa
antes achei que tinha barba feita
agora até parece uma mulher
fixa na mais íntima essência
ou junto ao fluxo da correnteza que varre
eu queria te aliviar sobre os grandes temas
- eu percebi, com aquele outro sentido,
como você os escondeu por certos motivos –
te agradecer por ainda existir
estar aí até hoje na esquina
pois é bom viver
nem que seja para isso

Júlio Custódio 
Filósofo da Linguagem e da Lógica (atualmente com PhD em curso), tendo atuado como professor de Filosofia na UFMT. Também é músico, compositor,  arranjador e produtor musical; trabalhou com vários artistas entre eles Vanguart e Caio Mattoso, além de trabalhos solos. O livro de poesias Você derrubou coisas pelo caminho é sua primeira publicação literária.

OS ERROS QUE VOCÊ ME TRAZ

chego em outro coração como cheguei no primeiro 
desconcertado de ainda ser possível estar lá
pois um dia o eterno eu-estrangeiro
que ri diferente 
que descasca a pele vencida
um dia voltará como sempre
irremovível e indiferente
não sei do que me livrará em tal situação 
já não tenho pulsação nem mente 
que me deixe ao menos um pulmão!