3.jpg

Waldney Jorge de Lisboa 
É professor de Língua Portuguesa da rede pública estadual e Mestre em Educação pela UFMT. Criado no bairro Cristo Rei, antigo Roção, antigo Capão de Negro. Morador de Várzea Grande e observador do mundo. Interessado em misticismo, Ufologia e pescaria. Acha melhor quando essas três coisas aparecem juntas. O desejo de dizer coisas se fortaleceu ao entender melhor as possibilidades da palavra e as nuanças do ser humano. O que não é dito é tão importante quanto o como foi dito. Constrói narrativas de fora para dentro. Sabe que o mundo acontece depois dos seus olhos.

BATU

Batu era louco. Na verdade, Batu ficara louco.


Logicamente que Batu não era o nome verdadeiro. Mas, depois que ficara louco ninguém mais sabia o nome verdadeiro. Era Batu, o Louco.


Nasceu e cresceu como todos da região onde vivia. Era uma mistura de índio com negro. A pele escura e o cabelo liso, curto. Era muito trabalhador, casou-se com uma mulher que espantava a todos. Mas, desse jeito, ele era feliz. Gostava de jogar futebol no bairro. Era falador e tirador de sarro. Também gostava de cachaça, e esse era seu mal. As pessoas o desconheciam quando ele ficava bêbado. Parecia que era outra pessoa. Xingava todo mundo, corria no meio da rua, fingia que não conhecia os amigos. Quando se recuperava da pinga, contava as peripécias que havia feito e caía na risada. Todos ficavam na dúvida se realmente a cachaça mudava sua personalidade ou se era pura brincadeira de Batu. Nunca se soube a verdade.


Era pedreiro dos bons. Não perdia serviço. Só não fazia se estivesse muito atarefado. Do contrário, era só chamar. Tinha 33 anos quando começou a ficar estranho.


Batu começou jogando pedra na rua, nas pessoas. E dizia que só fazia aquilo porque não tinha pecado e por isso ele era o primeiro a jogar a pedra. Ninguém sabia se Batu tinha frequentado igreja para ele aparecer com aquelas conversas. Contudo, acharam que era mais uma palhaçada de Batu. Teve a vez que ele subiu no telhado da própria casa e disse que iria voar. “Só os vivos não voam. As almas têm asas”, gritava indignado. Eram mais de cinco metros de altura. A família ficou desesperada. Era um desce, desce, desce daí em todos os tons e timbres e nada de ele descer. Sentou-se na cumeeira e ficou conversando com um ser que ninguém via. Eu quero ir com você, dizia Batu, olhando para o vazio. Eu vou, eu vou, cansei dessas pessoas, dessa mulher feia, dessa filharada. Eu vou. Eu vou, rá, rá, rá... Depois ficava quieto como que ouvindo uma reprimenda. Chorava um pouco e descia. E parecia que estava tudo normal.


Os dias passavam e a loucura aumentava. Começou a aparecer nas casas dos parentes de surpresa. Quando as pessoas assustavam ele já estava em pé do lado de fora da janela com um sorriso meio disfarçado de sadismo. Conversavam ali mesmo. O dono da casa não o convidava para entrar e ele não reclamava. Sem mais nem menos desaparecia. Um sobrinho contou que Batu chegou na casa dele com uma placa de carro e disse “essa é a placa do seu carro. Espera que ele vai chegar.” O sobrinho nunca soubera de onde era a placa, mas guardou para caso a profecia se realizasse.


Batu começou a andar mais sujo. Calça suja, pé sujo, cara suja. Decidiu que só andaria de ônibus e dizia que o companheiro imaginário dele o aconselhava a não pagar a passagem porque já havia pagado por muito tempo e já era hora de andar de graça. Quando os motoristas de ônibus o viam de longe no ponto nem paravam mais. Só que, às vezes, ele se escondia no meio do povo e, quando se davam conta, ele já estava dentro. E nunca ninguém ousou fazê-lo descer. E ele conversava, ria, e dizia que só descia no Cristo Rei. Nunca errou o ponto de parada. E sempre pedia para esperar o amigo dele descer. Conversava sozinho o dia inteiro e ninguém tinha mais dúvida: Batu enlouquecera totalmente.


Um dia Batu chegou em casa muito agressivo e colocou todo mundo para fora porque achava que a casa estava cheia demais. A mulher o abandonou porque se cansou de correr dele, os filhos se perderam e as filhas arrumaram marido.


No outro dia ele sentou no meio da rua e assim permaneceu. Não quis falar com pessoa alguma e assim ficou o dia inteiro. Não comeu, não xingou, não gritou. Nada. Ficou lá parado. Estático. Era a solidão no meio dos carros. Escureceu. Ninguém interferiu. Alguns passantes registraram em seus celulares a cena.


Por volta da meia-noite ele se levantou. Caminhou ereto, impávido. Quem viu disse que nem os olhos piscavam. Subiu a calçada e foi em direção a própria casa. Pegou as roupas, umas fotos, pôs tudo num saco branco, procurou álcool; não achou. Encontrou só uma caixa de fósforos. Juntou uns papéis e acendeu uma fogueira. Começou a colocar as roupas uma a uma. O fogo aumentou. Jogou o sapato, pegou um álbum de fotos. E foi colocando as fotos, uma a uma, eliminando pouco a pouco seu passado. Queimou a foto da primeira comunhão, dos jogos de futebol, dos amigos, do casamento. Tranqueira, ia dizendo. Pegou uma foto desfocada e embaçada. Era ele, mas nem aparecia direito. Jogou de lado. “Ninguém vai saber quem é mesmo”, pensou. Retratos nebulosos não têm história. Voltou até a casa e pegou o colchão da cama e jogou no meio das chamas. As chamas subiram. E por fim entrou no meio do fogo. Não havia choro nem grito. Só ele ouvia: vem, vem, vem. Bem no meio da cabeça. E Batu deitou no colchão em chamas. E rolou. O cabelo pegou fogo. Os olhos vibravam em chamas alaranjadas. Queimavam. O cheiro de carne queimada subiu. Esse cheiro de carne queimada era a parte mais dramática nessa cena. O corpo não resiste à memória. Batu, enfim, havia se curado da loucura.

© 2019 - Revista Literária Pixé.

  • Facebook