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Anna Maria Ribeiro Costa

É doutora em História pela UFPE e Professora do Univag. Chegou às terras do povo indígena Nambiquara na Primavera de 1982. Dos índios recebeu o nome Alusu, por conta de seus hábitos alimentares. Nessas terras, conheceu José Eduardo, com quem tem dois filhos: Theo e Loyuá. Vem se dedicando aos estudos sobre os povos indígenas de Mato Grosso, com especial atenção ao Nambiquara.

QUANDO O MUNDO ACABOU.
O URUTAU, A MULHER SOL E O HOMEM LUA

Urutau, uma ave de hábitos noturnos, também chamada de mãe-da-lua e emenda-toco, alimenta-se de animais de pequeno porte como morcegos, lagartos e pássaros. Mas, tem preferência por insetos que consegue captura-los em pleno voo. Não se assusta com facilidade e não se acostuma ao ambiente citadino. Quando pousado, sua postura estática e sua plumagem o deixam camuflado, confundido com um pedaço de madeira ou galho de árvore, por isso é também conhecido por camaleão dos céus.


Os indígenas da etnia Nambiquara, habitantes de terras localizadas ao Oeste de Mato Grosso, acreditam que o urutau, utisu, é a ave responsável pela regularidade do dia e da noite. No tempo de antigamente, que não se pode contar de jeito nenhum, o dia morava dentro de uma cabaça branca e a noite morava dentro de uma cabaça preta.  


O grande pajé era o dono das cabaças. 


Sim! Ele mandava nas cores do céu, onãnkosu. Na cabaça branca ele guardava o dia; na cabaça preta, a noite. Todo fim de dia, ele guardava a mulher Sol, ujenakisu, em sua cabaça branca e, do interior da cabaça preta, retirava o homem Lua, ilakisu. Hora de todos pararem de trabalhar. Hora de contar histórias, de dormir. 


Dia ensolarado. O pajé precisou se ausentar da aldeia. Como faria para recolher a luz da mulher Sol? Quem libertaria a escuridão do homem Lua? Lembrou do urutau que, por suas características, o mais indicado para ficar de posse das cabaças e controlar as cores do céu. Chamou e ave para explicar o momento correto da entrada da mulher Sol e da saída do homem Lua em suas respectivas casas de cabaças. Mostrou-se entendido no assunto e prontamente aceitou a importante missão.


Com as cabaças em seu poder, se sentiu o próprio pajé. Faceiro com a tamanha responsabilidade que lhe foi atribuída, levou os recipientes para o toco de uma árvore. À espera da hora de recolher a mulher Sol, descansou. Mas, ao movimentar-se, percebeu que uma das cabaças produzia um som, semelhante a um chocalho. Era a cabaça da noite. Chocalhou o recipiente do dia com as duas asas. Nenhum barulho. De novo pegou a cabaça falante e mal agitou, produziu o mesmo som. E, curioso como ele só, resolveu destampar a cabaça antes do acertado com o pajé.


Com precaução para evitar um mal, abriu só um pouquinho a tampa de sabugo de milho para saber o que produzia barulho. Eram contas miúdas de coco tucum, pérolas negras do cerrado, ideais para a confecção de colares que protegem dos maus espíritos. Fechou! 


Mas, as horas pareciam não andar. A mulher Sol a pino. Sacudiu novamente a cabaça da noite. E as contas de tucum cantavam... A ave cobiçava um colar para ornar seu pescoço. Destampou de vez a cabaça do homem Lua para obter as contas de coco tucum, a imaginar um precioso colar em seu pescoço. De dentro da cabaça, o homem Lua saiu abruptamente e ocupou toda a abóboda celestial. O urutau tentava em vão puxar a escuridão para o interior da cabaça. Enquanto isso, os homens que caçavam perderam-se no mato com a chegada inesperada do homem Lua. Na aldeia, as pessoas estavam amedrontadas.


Em pavor, gorjeou: uuuuu-ru-tauuuuu, uuuuu-ru-tauuuuu.


De longe, o pajé viu a escuridão caminhando em sua direção. Antes de chegar à aldeia, foi ao encontro do urutau que envergonhado lhe entregou as cabaças. Exaltado, o pajé tentou colocar de volta na cabaça da noite a escuridão do homem Lua. Mas, foi inútil.