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Stéfanie Sande

É escritora e doutoranda em escrita criativa na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

PRÓLOGO

A cozinha, banhada por uma luz amarela, ainda estava fresca. As janelas fechadas, no entanto, favoreciam a onda morna que vinha do forno ligado e arrastava-se pelo chão de azulejo xadrez. Bem no centro, farinha espalhava-se na grande mesa de madeira, por vezes caindo no chão ou ficando em suspensão no ar, iluminada pelos feixes de luz que se esgueiravam pelas vidraças.


Maria de Lourdes apertava a massa com movimentos firmes. Abria, colocava mais farinha, apertava, fechava, abria e assim por diante, até a consistência chegar ao ponto ideal. Conforme preparava o pão, sentia sua barriga, antes imperceptível embaixo do avental, crescer. Estava grávida.


No momento em que colocou a massa oval na forma untada de manteiga e a levou ao forno pré-aquecido, sua barriga estava tão grande que foi obrigada a afrouxar o avental. Gotículas de suor escorriam de sua testa. 


Lourdes abriu a geladeira e, de dentro, tirou uma jarra de vidro cheia de água gelada. No primeiro contato com a mesa untada e o calor que agora irradiava por toda a cozinha, a jarra também começou a suar. Foi nesse momento que Lourdes encolheu-se, fazendo uma careta, levando a mão à barriga. A primeira contração.


No chão, um líquido viscoso espalhava-se, escorrendo de sua perna e manchando a barra do vestido. Lourdes respirou fundo, paralisada pelo medo. Então ele entrou. Vestia uma camisa social branca com listras azuis e segurava uma maleta de couro. Colocou a maleta no chão e, com cuidado, segurou a mão de Maria. Sorriu.


— Está na hora, querida — ele disse.


Ela, agora com o cabelo colado no pescoço molhado e expressão aterrorizada, acenou. Ela respirava fundo, mas isso de nada servia para acalmar os nervos. Ele, notando, segurou a mão dela com mais firmeza. Com os olhos na esposa, levou a mão dela à boca. Primeiro, deu um gentil beijo. Depois, mordeu com força. O primeiro grito ecoou pelo ambiente abafado enquanto sangue espalhava-se pelo chão.


Engolir a mão não foi tarefa fácil, mas era necessário prosseguir. Depois da mão, o braço direito, o esquerdo, a cabeça, pescoço, tronco. A barriga foi difícil dado o seu estado avançado de inchaço. Sentia o maxilar doer, os dentes latejar, mas não parou até engolir o mindinho do último pé.


Quando terminou, estava jogado na poça de sangue, ofegante, suas roupas manchadas de um vermelho tão escuro que parecia preto. Demorou até conseguir levantar e beber a água da jarra que agora suava tanto quanto ele. Bebeu um gole quando sentiu uma dor de cabeça tão intensa que quase derrubou o vidro no chão.


Cobriu a testa com as mãos, apertando, tentando fazer com que a dor fosse embora. Os dentes cerrados, os olhos fechados, as veias saltando. E então, o segundo grito ecoou pela cozinha. A testa ardia, parecia dilacerar-se. Ele caiu de joelhos, sentindo que a cabeça partia-se em duas.


Teve certeza quando uma mão saiu do meio de sua cabeça. Uma segunda mão seguiu, fazendo força para que a pequena fenda crescesse e desse mais espaço. Logo, uma cabeça, pescoço, tronco, bunda, coxas e pernas também seguiram o mesmo caminho. Ele, com a cabeça partida ao meio, jazia inerte no chão ensanguentado.


Olívia, um vestido que poderia ter sido branco, mas que agora estava colado em seu corpo, pingando vermelho, ficou no chão, como que aprendendo a respirar. Assustada, olhou em volta. Depois de um momento, levantou, erguendo seu corpo de mulher feita, abrindo os olhos, a respiração incerta. Apoiou as mãos na mesa.


Vendo a água morna na jarra, decidiu que era melhor que nada. Bebeu tudo. O calor era tanto que se sentia sufocada. Então um apito. Vinha do forno. Ela agachou-se na frente dele e viu que o pão caseiro estava pronto. Pegou a luva térmica, abriu o forno com cuidado e levou a forma até a mesa.


O pão dourado tinha um aroma irresistível. Olívia pegou uma faca. Uma pontada. Assustada, olhou para baixo. Sua barriga, antes lisa embaixo do vestido ensopado, agora formava uma pequena protuberância. Ou seria impressão? Talvez fosse.


Olívia abaixou-se para pegar a faca. Limpou-a com um pano de prato e cortou um pedaço de pão. Divino. Sentiu outra pontada. Agora não havia dúvidas. Sua barriga, antes do tamanho de um melão, agora assemelhava-se mais a uma melancia. Uma pequena, mas parecia crescer numa velocidade assustadora. Então ele entrou.


Com as mãos na barriga que se expandia, Olívia mal conseguia ver o vulto, uma figura alta que se aproximava. Não importava o quão perto ele estivesse, seu rosto  era uma sombra, assim como o resto do corpo.


Olívia contraiu-se. A dor. A sombra passou a mão pelo seu braço. Um toque suave, reconfortante. A sombra olhou a própria mão, agora manchada com o sangue do pai.


— E agora? — perguntou Olívia, sua voz esganiçada pela dor e abafada pelos dentes cerrados.


A sombra suspirou, passando os dedos mais uma vez pelos braços de Olívia, partindo do ombro e indo até o cotovelo. Tivesse ele olhos, observaria a jovem com afeto. Amava-a.


— Agora... - ele disse, apertando sua mão. — Agora é a sua vez.