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Danilo Fochesatto

Possui graduação em Tecnólogo em Processamento de Dados pelo Centro Universitário de Várzea Grande (2002) e Bacharelado em Direito pela Universidade de Cuiabá (2016), devidamente inscrito na OAB, seccional Mato Grosso. Tornou-se, em 2013, servidor da Universidade Federal de Mato Grosso - UFMT e, a partir de 2015, passou a atuar no Escritório de Inovação Tecnológica - EIT. Atualmente é mestrando do PROFNIT - Programa de Pós-Graduação em Propriedade Intelectual e Transferência de Tecnologia para a Inovação.

MEU PAI

Vou contar como consegui meu pai. Principalmente porque não foi um mero acidente de nascimento. Um dia, tive pesadelos satânicos e acordei mais cedo que o resto da família. Fiquei na janela do segundo andar vendo a rua uivar e, eventualmente, engolir pessoas distraídas. Em meio aos soluços do tempo, avistei uma viatura descendo, na gatunagem. Notei o desespero de um homem bem próximo ao muro de minha casa. Ele tirou a mochila das costas e a jogou em nosso quintal. Os policiais desceram e o renderam. Perguntavam pela mochila de modo feroz. Pensei, é claro, que o prenderiam. Então desci e abri o portão. Disse-lhes que aquele homem estava ali para resolver um problema com nossa fiação. Ficaram me fitando sem dizer o que pensavam. Aí entreguei a mochila que queriam. Não encontraram coisa alguma que pudessem usar para incriminá-lo. Eu, que era apenas mais um garoto filho de mãe solteira, eu a entupira de conexões de canos do amor, de ferramentas para o afeto, de fios de cobre para transportar a energia que nos manteria unidos. Fiz tudo para sustentar o equilíbrio da burla que criei. Ora, ser criança é cozinhar cadarços e amarrar espaguetes. Resignados, os guardas o liberaram. Juntos, contemplamos o camburão dobrar a esquina. Daí o homem me levantou pela gola da surrada camiseta do Tupiniquim Man. “Onde tão minhas coisas, muleque?” Eu sorri de plena satisfação. Sabia que ele seria um bom pai e me amaria se me conhecesse. Sabia que, se quisesse, faria minha mãe feliz. “Tão lá em casa”, respondi ao desconhecido, meu futuro exemplo de vida, pois tive o pressentimento de que ele era a melhor opção dentre a escória da região. Às vezes temos de arriscar para valer. Às vezes temos que fazer alguma coisa para continuarmos a não fazer nada, como antes. Se fosse por minha mãe, eu estaria fodido. Aquela songamonga só arrumava trastes viciados, vagabundos desempregados, preguiçosos e valentões declarados. Meus avôs nunca reclamavam das escolhas que fazia porque ela os sustentava. Eu, entretanto, não fora condicionalmente instruído a me calar enquanto os outros eram malcriados comigo. Foi aí que convidei meu pai para tomar um copo d’água na cozinha. Quando ele pôs na pia o copo meio vazio, meio cheio, minha mãe apareceu. O amor é cego, mas eu posso enxergar por ele. Vi os olhares deles se cruzarem e torci os dedos dentro dos bolsos para que tudo desse certo. Só dessa vez. Como sempre pedimos. Em seguida, ela sorriu como uma lata de sardinha aberta da maneira correta. Por sua vez, ele foi lá fora e fez um gato no poste. Nunca mais pagamos pela energia elétrica que usávamos. Se examinarmos de perto, veremos que toda família unida se vinga sozinha. Meses depois, os dois se casaram, com festa e tudo mais. Finalmente, eu tinha um pai. Eternamente grato por meu ato. Enquanto eu, que não tinha nem onze anos, já sabia que as estações do ano eram mal divididas, e que os filhos desobedientes que se tornam mais inteligentes que os pais podem ser deveras cruéis.