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Lucinda Nogueira Persona

Escritora, bióloga e professora, nasceu em Arapongas, PR, em 11 de março de 1947. Vive em Cuiabá. É formada em Biologia pela UFMT e mestre em Histologia e Embriologia pela UFRJ. Já publicou os livros de poesia Por imenso gosto (1995), Ser cotidiano (1998), Sopa escaldante (2001), Leito de Acaso (2004), Tempo Comum (2009), Entre uma noite e outra (2014), além de publicações para o público infantil e colaborações para revistas, jornais e outros periódicos.

PALOMAS

Certa manhã e depois
durante toda a primavera
aquele casal de pombos fez-me testemunha
    do fervor de suas núpcias
do ruído de seus voos
de suas glórias no chão
(por uma família)
Ostensivo revolutear de um lado a outro
Tagarelices de amor e papo cheio
O casal elegeu para ninho o beiral da casa
Local protegido da intempérie
Secreta estrutura que me foi advertida
por apropriados sinais construtores:
    pequenas viagens, gravetos, palhas e plumas
danças idílicas, exibições, bicadas, arrulhos
várias copulações visíveis
(com que ligeireza e escandalosa naturalidade)
E no piso
as fezes de todos os dias
as cascas de ovos caídas do ninho
Sim, eu vi pedaços de vida
(como um espelho).

UMA FORMA DE SOL

Um desses dias, de incitações com brandura
deram-me a lembrar certa recorrência
Disseram que eu escreveria
um poema sobre a chuva
    Até apostaram
Não contraditei, estão certos sobre a obsessão
Então, cismei, quem sabe uma forma oposta
Uma forma de sol
    o sol acabando de nascer
    um fio de luz matinal
o tom oblíquo entardecido
Ou algo de extrema secura:
a unha, o deserto, a sempre-viva
o cerrado pós-incêndio
o bico e o grito da arara
a areia, o papel, a faca, o prato
a uva-passa, o seco olhar
a garganta seca
a garganta seca
Pensei um sem acabar de coisas correlatas
Pensei até que
Talvez todas as chuvas queiram libertar-se
dos insaciáveis poetas.