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Eduardo Mahon

Editor Geral

EDITORIAL

Haverá uma “literatura feminina”? Uma literatura que expresse essencialmente a identidade da mulher? Não creio. Os adjetivos reducionistas que pretendem o contraponto sexista não cabem na expressão artística que, como sabemos, é tão libertária que o escritor “finge que é dor a dor que deveras sente”, como eternizou Fernando Pessoa. A mensagem autopsicografada de Pessoa, ele mesmo pai e mãe de tantas outras personalidades, resumiu bem a questão: a arte é criação e, justamente por isso, não é possível enxergá-la com as mesmas lentes de outros saberes ou considerá-la um simples reflexo da realidade social, dos meios de produção, ou de qualquer outro contexto histórico. Tudo é passível de mensuração e reflexão, mas a arte nunca caberá em uma única moldura teórica. 


Proponho um jogo. Um desses testes às cegas que se fazem com vinhos. Risquemos a autoria dos livros que serão objeto da brincadeira. Tomemos Romeu e Julieta de Shakespeare e entreguemos a um grupo de leitores. Façamos o mesmo com Madame Bovary de Flaubert, Anna Karenina de Tolstói, Lolita de Nabokov e Trópico de Câncer de Henry Miller. Num outro grupo, coloquemos Orlando de Virgínia Wolf, Jane Eyre de Charlote Brontë, Orgulho e Preconceito de Jane Austen. Será que o primeiro grupo identificará uma “literatura masculina” e o segundo irá perceber uma “literatura feminina”. E se misturarmos os livros? Alguém verá a diferença no tipo de escrita? Algum leitor terá percebido, na primeira edição apócrifa de Frankenstein que foi uma mulher a autora? O que dizer dos sertões criados por Raquel de Queiroz? Cecília Meireles, Hilda Hilst, Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon são reconhecidas pela “escrita feminina” ou pela inegável qualidade estética? 


O Quarto de Despejo de Carolina de Jesus não poderá ter sido escrito por um homem? Ou o Pornopoéia de Marcelo Mirisola seria masculino em demasia? Talvez Bernardo Kucinski tenha roubado o “local de fala” da mulher em K: Relato de uma Busca, Gabriel Garcia Marques com O Amor no Tempo do Cólera. Terá sido machista Eça de Queiróz com a sua Amélia? E Machado de Assis com a eterna dúvida sobre a honra de Capitu? São perguntas sem nenhum sentido. Problematizar a arte nesses termos é empobrecê-la. O certo é constatar a realidade nua e crua – o milenar machismo castrou as mulheres literal e metaforicamente. É preciso oportunizar espaços com a mesma dignidade com a qual os homens são costumeiramente tratados. Para isso, nada melhor do que publicar mulheres, premiar mulheres, homenagear mulheres, torná-las visíveis ao público leitor. Essa é uma política afirmativa que visa uma obviedade: mostrar que somos iguais.


Equalizar espaços de representação não significa promover preconceito às avessas, nem tampouco afirmar que é maior ou menor, melhor ou pior, mais ou menos consistente a literatura produzida por mulheres. Acredito, aliás, que ao qualificar de “feminina” a expressão artística, inevitavelmente o rótulo reduzirá a dimensão da obra. Wolf foi grande pelo que produziu e também por ser mulher, da mesma forma que Shelley, Austen, Atwood. Contudo, ainda que tenha sido admirável a coragem dessas escritoras, é pela qualidade estética que são e serão reconhecidas. Esse é o maior elogio que se pode fazer: reconhecê-las. Pontificamos hoje e sempre, mesmo em uma realidade profundamente machista que submete, subordina e extermina física e psicologicamente mulheres em todo o mundo, que elas conseguem ombrear-se de igual para igual. O que falta, em resumo, é oportunidade. Por isso, essa edição especial da Revista Literária Pixé é integralmente dedicada a elas.