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Odair de Morais

(Ôda), cuiabano, autor de Contos Comprimidos (Multifoco, 2016) e do volume de haicais Instante Pictórico (Carlini & Caniato, 2017).

“POSTO DE GASOLINA”

Ana, o homem chamou junto à porta de zinco.
As mãos espalmadas à altura do tronco na porta branca, como se a empurrasse. 
Ana!, ele repetiu, quase numa súplica. 
Nenhum barulho no interior do banheiro. 
Tirou o boné surrado com a mão esquerda e apoiou a testa na porta, queria escutar um rumor que fosse vindo lá de dentro.
Coçou a cabeça. 
O que teria acontecido com ela?
Fazia tempo que entrara no banheiro, reclamando do estômago. 
Há dias se queixando de dor. 
Enjoo. Ânsia. Diarreia. 
Talvez por não se alimentar direito... 
Você só bebe pinga, Ana, dá nisso. 
Não se cuidava. 
Andava suja e cheia de feridas pelo corpo.
Hematomas das últimas brigas coloriam como tatuagens a pele escalavrada, repleta de arranhões.
Esgueiravam-se juntos pelos becos escuros, lépidos e sorrateiros, dois gatos pardos sob a lua embaçada.
Comparados frequentemente a zumbis, ninguém tinha piedade deles. 
Nem mesmo quando, ao pedir um prato de comida, humilhavam-se diante dos moradores. 
Bate na porta com o punho cerrado. 
Não tinham pena de dois desgraçados?
Voltavam de madrugada arrancando a placa das casas. Divertiam-se, trocando-as de lugar.
Ana, você tá bem?
Ana não responde. Bem ela não estava. 
Fala comigo, Ana, por favor.  
O homem chama a mulher cada vez mais alto. 
O desespero cresce: sobe e desce como um martelo atingindo a porta. 
Chama a atenção das pessoas que antes sequer notavam a presença do homem vestido de mendigo em sua indigência.
A porta está trancada por dentro. 
Mãos encardidas!  
Ele cola a orelha na porta e suplica: Não faz isso comigo, Ana. 
A conversa é animada em volta das mesas próximas. 
As pessoas riem. 
Gesticulam. Ouvem músicas. Consomem muita cerveja.
A temperatura começa a diminuir: o entra e sai na loja de conveniência, porém, continua constante.
Por que viera descalço?, ele tenta se lembrar. 
Observa as próprias canelas. 
Os pés inchados. 
Um talho no calcanhar direito o fizera caminhar até ali como um aleijado.   
Perdera o chinelo. 
Não! Arrebentara. 
Pra falar a verdade, fazia tempo que não usava calçados. 
Agora ele praticamente esmurra a porta. 
E bate cada vez mais forte: é ele o pugilista exangue encurralado nas cordas.
Os frentistas do posto de gasolina entreolham-se, incomodados. 
Um sujeito bem vestido deixa o caixa a passos largos.
Gesticula enfurecidamente diante do funcionário que apenas observava a cena junto à bomba de gasolina: 
Vai lá e manda o nóia dar o fora! 
Por que eu?
Porque eu tô mandando, porra. Não sou o gerente? Vai lá ou amanhã está na rua. Escolhe. 
Funcionário e gerente se detestavam.
Deixa estar, murmura o frentista. 
Observa que, do outro lado da avenida, o baguncinha faturava dobrado aquela noite. 
Se desse tempo, passaria lá antes de encerrar o expediente. Aproximou-se, sem muita pressa: 
Qualé, mermão, quer detonar a porta mesmo?
Ana tá aí dentro, o homem explica.
Quem é Ana?
Minha mulher. Que às vezes limpava o banheiro, em troca de um lugar pra dormir. 
Lavava o piso, esfregava os azulejos. 
Não se lembrava? Quantas vezes tinham comprado álcool ali? 
Os frentistas mesmos, zombando, diziam: Vocês vão morrer!, e punham o etanol direto da bomba na garrafa descartável. 
Na fissura, de madrugada, sem nada pra comer, certa vez, Ana e ele discutiam por causa de duas latinhas de alumínio. 
De longe, o vigia do posto de gasolina gritava, exasperado, que calassem a boca. 
Era tarde, ele queria dormir. 
Os dois fingiam não escutar.
Ah, vocês não vão parar?, o homem não perdoou a insolência. 
Chegou na voadeira, distribuindo socos e pontapés. 
Chutava e socava sem dó o que encontrava pela frente.
Parecia ter o diabo no corpo.
Desde então, jamais se esqueceu.  
Só por terem lhe perturbado o sono? 
E eles por acaso tinham horário pra dormir? 
Nem pra dormir nem pra se levantar. 
Quantas vezes foram acordados com baldes de água fria na cara?
Saíram arrastando lençóis e pedaços de papelão pela calçada. 
Subiram a avenida de FEB.
Caminhavam mudos e cabisbaixos. 
Desolados. 
Jogados à própria sorte nesse mundão de meu Deus... 
Sem família, sem dinheiro, sem um lugar pra dormir – e nem ao menos para tomar um simples banho!
Com timidez, jogou o braço esquerdo sobre os ombros de Ana: um gesto raro entre eles. 
Apesar de ter estranhado, ela consentiu: fera acuada que momentaneamente permite que lhe façam curativos. 
Dentro da loja de conveniência, o vigia punha em funcionamento outra vez as turbinas do ar-condicionado.
Tentava agora, a todo custo, rebobinar o sonho interrompido.
Aos brigões como alternativa restou apenas esticar o esqueleto no chão sujo da praça, àquela hora ocupada por outros indivíduos.
Deitaram-se juntos, como há muito tempo não faziam.
Com o lombo dolorido, ele recorda, adormeceram mais rápido do que de costume aquela madrugada.
O cara do posto movimentou a maçaneta três vezes com impaciência.  
Já tentei. Tá trancada por dentro. 
Forçou a porta com o ombro pra ver se não estava emperrada e confirmou que não teria jeito. 
Caminhou em direção às bombas de gasolina.
Ia chamar o vigia. 
Ao ouvir o que o outro dissera, o homem afastou-se, colocando-se a uma distância que considerou segura e esperou.
Ficou de longe observando.  
O vigia veio e pôs a porta abaixo, com a expertise de quem dinamita a entrada de um cofre pela primeira vez. 
No interior do banheiro, a mulher estava caída numa poça de vômito, abraçada ao vaso sanitário. 
Morta.
No rabecão, horas depois, foi levada ao IML.
Ana não portava documentos e ninguém jamais soubera da existência de algum parente vivo, morto ou até mesmo distante.
Ela não comentava.
Se examinassem o banheiro onde encontraram-na morta, porém, veriam na parede um número de telefone riscado às pressas com um grampo de cabelo.
Onze dígitos.
Em caso de urgência, a mãe insistia, pode ligar.