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João Antonio Neto

Escritor

REMANSO

Este rio que aí vês, desfeito em redemoinhos,

de grotão em grotão, desmoronando espumas,

nasceu na serra, além, cristalino, entre algumas

árvores festivas, cheias de alegres ninhos...

 

Quem o vê rolar assim, transpor pedras e espinhos,

sob a teia do sol e a cinza ional das brumas,

há de pensar, talvez, que ele busca os carinhos

do mar, qual se o mar fosse um tálamo de plumas...

 

Mas, o certo é que o rio estrondejante sente

uma saudade atroz do seu berço inocente

por que seu grande amor, em convulsões, palpita...

 

Tanto é que, no remanso, onde entra devagar,

para, treme, reflui, nessa angústia infinita

de quem não quer seguir, mas não pode voltar...

 

 

SEMELHANÇA

Há criaturas que são como as paineiras:

vivem dando colchão aos friorentos;

outras, preferem ser a laranjeiras:

tecem grinaldas para os casamentos...

 

Muitas, sem paina para os nevoeiros,

nem tendo flores para os sacramentos,

dão lenha para o fogo das lareiras

e sombra para a união dos pensamentos!...

 

Algumas vivem como as parasitas:

matando quem lhes dá seiva e carinhos

e o remédio das mágoas infinitas...

 

Outras, lembram roseiras caprichosas:

ramos cheios de espinho... Entre os espinhos,

o silêncio balsâmico das rosas!...

 

 

QUANDO EU MORRER...

Quero uma cova, que não seja rasa,

escondida no meio das raízes

dessa árvore que em flores se extravasa,

para a glória dos pássaros felizes!...

 

Ali, sem ver angústias infelizes,

construirei, de novo, a minha casa,

e viverei no aroma e nos matizes,

enchendo folhas, entre ruflos de asas!...

 

Tende cuidado, pois, ó lenhadores,

em não ferir essa árvore, com os vossos

machados frios e destruidores!...

 

Que se a cortardes, do seu tronco exangue,

em vez de cerne – hão de ranger meus ossos,

e em vez de seiva – há de jorrar meu sangue!...

 

 

ROCHA

Dizem-te morta, porque nada existe

do gesto humano, em teu sereno rosto

que, sem mover-se e sem chorar, resiste

à água de março e ao duro sol de agosto...

 

O semblante parado e descomposto,

como que nada vê e a nada assiste...

Ninguém nunca te viu mudar de gosto,

fazer-se alegre ou revelar-se triste...

 

Mas, talvez, teu silêncio acrisolado

guarde a essência de um grito contrafeito,

num grande pensamento congelado!...

 

E quem sabe não tens, por arremate,

um sentimento imóvel, sob o peito,

e um coração que sente, mas não bate!...

 

 

 

IMAGINAÇÃO

Fio diáfano que engasta

o fundo imóvel das vidas

ao ideal que nos arrasta

por terras desconhecidas...

 

Poeira de crenças perdidas,

na solidão roxa e vasta,

extrema-unção dos suicidas,

beijo que doira e devasta...

 

Sulcando mares proibidos,

nada há que não junte e englobe

na teia dos seus sentidos...

 

Céu, onde inferno estremece...

Mágoa alegre de quem sobe,

gozo triste de quem desce!...

 

 

BÁRBARO ALVORESCER

O rio, rápido, rouco, ríspido, rábido, rola.

forte, fundo, fugaz, furioso, fungando...

Vem o dia a nascer, entreabrindo a corola

da grande flor do sol, as trevas dissipando...

 

Fina, filigranal, fofa, fluida, flutuando,

nua, nívea, neblina, o céu sereno empola...

E o dia avança mais, orvalhado, ofegando,

e a luz, rasa, revel, rica, ruiva, rebola...

 

Ao pé da serra heril, onde o céu pôs seus mantos,

freme a fronde feral, farfalhante e fremente

da selva, a despertar, desfeita em castos cantos!...

 

E quando o sol, enfim, fura o fundo dos valos,

inda se pode ouvir, a ecoar, longinquamente,

o grande gargalhar, galvânico, dos galos!...

 

 

EU E A MINHA SOMBRA

Eu e esta sombra negra a me seguir de perto,

por onde que que eu vá, por onde quer que eu desça!

E a se mexer no chão, como o desenho incerto

duma caricatura extravagante e espessa...

 

Muitas vezes, tal qual um corvo do deserto,

alarga a asa, sem luz que agrade ou resplandeça...

E, às vezes, se contrai tanto, que eu fico certo

de estar calcando aos pés minha própria cabeça!...

 

Não há como fugir, como desvencilhar-me

dessa sombra augural, cheia de estranho alarme,

de não sei que expressão adúltera e nefasta!...

 

E não finda esta união que me angustia e assombra!...

Quando fujo do sol – minha sombra me arrasta!

Quando persigo o sol – arrasto a minha sombra!

 

 

 

A MORTE DO SOL

Acaba o Sol de ser assassinado!

E, na câmara ardente da Montanha,

seu corpo jaz, molhado de oiro e sangue!...

 

Vésper, chorosa e santa, colocou

a branca flor de um círio nos seus pés...

O Arroio seguiu atrás do Mar

para participar-lhe a infausta nova...

E nas cartas das Asas Vespertinas

chegam, de toda parte do Infinito,

mensagens de pesar à Terra viúva...

No templo da Floresta as Arapongas

fazem dobrar os sinos a finados...

E os fúnebres Morcegos cortam sombras

para pôr luto nas Palmeiras tristes...

 

Em homenagem póstuma, profunda,

foi decretada a paz absoluta,

pelo congresso augusto dos Silêncios...

 

As flores, ao sopé da roxa Serra,

inclinam seus nivosos lacrimários

e choram, pelas pétalas dormentes,

o pranto alabastrino dos Orvalhos...

E do longo turíbulo do Vale

sobe, fluidificando a imensa mágoa,

o incenso litúrgico das Névoas...

 

 

 

CÉU E MAR

MAR! Abençoado Mar, que refletis o Céu!...

Céu! Glorioso Céu, que vos mirais no Mar!...

– Que crime vos alia, em vossa profundeza?

– Oh! golfos abissais, que grande amor vos une?...

 

Por que vos levantais, ó Mar, em ondas irosas,

quando raiva no Céu o grito das procelas?...

Céu, por que vos baixais para beijar de manso

o repouso do mar sob as névoas marinhas?...

Por que sois sempre assim azul, ó Mar pungente?...

Por que viveis, ó Céu, perpetuamente azul?...

 

E fico olhando o Céu, e fico olhando o Mar...

No Céu, as brancas asas das gaivotas...

Brancas velas, à flor inquieta do Mar...

 

Será o Mar um grande Céu desmoronado,

caído sobre a Terra e transformado em água?...

Será o Céu um Mar antigo que se ergueu

sobre algum vagalhão, e ficou preso no ar?...

 

E fico olhando o Céu e fico olhando o Mar...

E, ao longe, no horizonte, onde os dois se interfundem,

não sei se é o Mar que sobe pelo Céu,

não sei se é o Céu que desce pelo Mar!...

 

 

 

MUTIRÃO

Veio o Chico Colodino

na sua égua alazã;

a Maria do Plotino,

uma tia e sua irmã...

 

O Rozendo mais o João,

o Mané e o Capiau,

o Nelo com o violão,

e o José com o berimbau;

mais atrás o Julião,

com suas “testas-de-touro”

na ponta fina dum pau...

 

Ao lado, o Nego Maneco

o grande corpo sacode,

carregando o reco-reco

e a sanfona “pé-de-bode”...

 

Lia, irmã de Maricota,

com um lenção sobre a cabeça,

procura dona Carlota,

muito rosada e travessa...

 

Dona Joana, mal montada

num lerdíssimo jerico,

grita forte e desdentada:

— Isso num vai, Nhonhô Chico?!...

 

— Ora se vai, dona Joana!...

(Bate o bicho, cospe e xinga,

enquanto dá viva à “cana”

e chupa um gole de pinga...)

 

— Vamos parar, minha gente!...

(Brada o velho Puxa Faca.)

— O sol tá doido de quente!...

(E a turma, aos poucos, estaca...)

 

— Vamo esperá, minha gente!...

(Convence o Júlio da Grota.)

— Esse povo anda atrasado...!

— Por onde anda a Maricota...?!

— Cadê o Rui do Anastaço?...

— Eu não vejo o Pedro Mota...

(— Ai, eu morro de cansaço!...)

 

Vinte a pé, dez a cavalo...

Ou mais – não sei quantos vão...

Tudo alegria e regalo!...

– É dia de Mutirão.

 

A Lina, lá do Sapé,

cabelo cor de limão,

com uma chinela no pé

e outra chinela na mão,

passando por Barnabé,

diz pra Maria José:

— Vai ser no outro São João...

 

Pararam todos de novo,

para beber numa grota...

— Cadê o Pedro, meu povo?...

— Onde anda a Maricota?...

 

Na subida do barranco,

depois da bebida da água,

Lolita levou um tranco,

caiu... E mostrou a anágua...

 

Todos riram do acidente,

vendo-lhe o róseo joelho,

mas o Raimundo Vicente

foi quem ficou mais vermelho...

 

A velhota Sinhá Rita,

solteirona sem pigarro,

num salão feito de chita,

fez questão de vir no carro,

pitando, muito contrita,

por seu cachimbo de barro...

 

Mas, quem mais aparecia

era a Lulu da Arabela,

toda coleante e macia,

com uma sombrinha amarela...

 

Quase chegando, uma légua,

o Maneco de Alencar

arrancou a “mão-de-égua”

e meteu bala no ar...

 

Era o aviso... Uns cavaleiros

vieram para encontrá-los,

suarentos e brejeiros,

empinando os seus cavalos...

 

Chegaram todos, cantando...

Um grupo enorme e bizarro...

A velha Rita pitando

lá em riba do seu carro...

 

Uns de a pé, outros de arreio,

tudo mundo se ajuntou...

Só Maricota não veio...

E Pedro nunca chegou...

 

 

 

MOLEQUE

Moleque lampeiro do fim de arrabalde,

que fuma, que joga e é mesmo capaz

até de matar...

 

Moleque vadio que atira pedradas nas casas vizinhas,

que bebe cachaça

e dorme no banco mais duro da praça...

 

Moleque sem letras, sem dons nem ofício,

que xinga, que briga e vai pra cadeia,

que nasce moleque, que vive moleque, que morre moleque...

 

Moleque! Moleque, quem foi que te fez

assim tão moleque?...

Moleque na alma, moleque na cara. moleque no jeito,

moleque por fora, moleque por dentro,

moleque completo, moleque perfeito?!...

 

Talvez tenha sido teu pai um moleque,

talvez tenha sido moleca tua mãe,

jogada no lado letal, infecundo...

 

– Moleca é esta vida!

– Moleque é este mundo!

 

 

 

ÚNICA

Em taça de ouro condeno

o vinho e o mel que me dão...

– Mas beberia veneno

na concha de tua mão!...