© 2019 - Revista Literária Pixé.

  • Facebook

Amauri Lobo

(55) é artista, sociólogo, jornalista e professor. Não necessariamente nesta mesma ordem. Começou nos anos 1980, na cena de Cuiabá (MT) e já rodou muito, inclusive tendo morado na Alemanha. Faz poesia, música e, a partir da experiência do bando Caximir, enveredou pela multiarte. Publicou livros, impressos e periódicos de poesia. Gravou em vinil e em CD. Prepara-se para lançar trabalho nas plataformas digitais. É ativista da cultura, por quem morre de amores.  

PÊNDULO ARREDIO

Assinado Meu tratado de loucura
Eu me acho no direito
De ser livre o quanto quero
E também quanto não devo

Fechar escapamentos
Triturar todo concreto
Plantações pelo asfalto
Todo certo pelo incerto

Toda alma é divina
Toda etnia é sadia
Deus lhe salve e eu te guio
Sou tua ave de rapina

Sou congada, sou o negro (negro!)
Vê meu sangue São Benedito
Um Deus Negro pro meu Santo (negro!)
E um Barão que é Deus Vadio

Ê congada, ê...
Morta por um Século Vinte
Ê congada, ê...
Morta por um século... vinde!

E nasceste em Cavalhadas
Alazões pelas veredas
As princesas nos castelos
E os anéis de fortaleza

 

Marinheiros aportando
Bandeirantes nas picadas
Arraiá de Cuiabá que nasceu das incertezas

Sobra a brisa de uma noite
Negros nus pelas senzalas
Morte crua em céu risonho
De uma lua equivocada

E o meu pêndulo arredio
Cavalgando em disparada
Sobre o lombo de um peixe
Nestas águas condenadas

Descobri que sou o índio
Sou o dono destas terras
Vitimados por teus fogos
Dizimados por tuas guerras

Sou o sêmen, sou o óvulo
No ventre da natureza
Voltar a ser de novo o clarão das labaredas
Incendeia coração, mata-me pela sua clareza!

* O poema transformou-se numa canção, cuja letra é de Amauri Lobo e a música, resultado da parceria com Beto Seror