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Lucinda Nogueira Persona

Professora, poeta, ocupante da cadeira no 4 da AML.

O SALDO DAS LEMBRANÇAS

N inguém escapa das recordações ou de, num certo momento presente, viajar proustianamente no tempo e filtrar para o futuro o que lá atrás aconteceu. O saldo das lembranças está entre as coisas que mais se agitam em nosso espírito e o caminho natural pode ser o relato, oral, entre as pessoas, no cotidiano fortuito, ou então, vez por outra, esse relato, numa crescente premência, pode desaguar na escrita. Assim, os fatos lembrados alcançam o patamar literário.


Do acontecido recriado emerge o conto num de seus sentidos ou acepções. As reconstruções permitem encontrar no meio das letras a rara mistura de fatos vividos por alguém que tem suas histórias e ao contá-las já não parece que tais histórias sejam suas, pois recordar é flutuar no esgarçado tecido da memória. Recordar é tentar conexão com o desvanecido, com o incorpóreo e impalpável, resultando numa condição diferente e sem a primitiva exatidão do acontecido. Uma exatidão que sofre esfacelamentos e transparece nas palavras da personagem de Água Viva, de Clarice Lispector, quando avisa: “Mas agora quero ver se consigo prender o que me aconteceu usando palavras. Ao usá-las estarei destruindo um pouco o que senti – mas é fatal”.


Assim compreendendo, a recordação não existe como recuperação fiel de uma experiência vivida, mas como concepção do espírito. A criação estaria relacionada às metamorfoses que a experiência vivida sofre ao longo do tempo. É dentro desses alinhavos que se insere o novo livro de Marta Helena Cocco (Carlini & Caniato Editora, 2016), Prêmio Mato Grosso de Literatura, sob o título: Não presta pra nada, fazendo desatar de um novelo inicial seus doze contos, de estilo claro e de proporções delicadas.


A começar pela capa do livro, a oferta pictórica Colcha de Retalhos de Capucine Picicaroli, já é um conto portentoso, sugerindo alguns dos elementos essenciais presentes no horizonte narrativo. Nos vivos traços da artista plástica há uma paisagem natural de fundo com um campo de flores, um céu volumoso, densamente azul, os galhos de uma árvore e seus frutos vermelhos e, em primeiro plano, de frente para o observador, uma artesã, rosto batido de sol, tendo às mãos agulha, dedal e longa colcha bordada. De imediato, um pensamento nos assalta – é preciso ter sempre à mão um sonho.


Nos contos de Marta Cocco nota-se a presença constante de mulheres, cada uma com sua história e o sentimento de algo que passou. São narrativas nas quais subsiste o código realista, o referencial de quem não quis se despedir de tudo aquilo que em si é matéria de vida; de quem tem por dentro a recomendação aflita de um pai caminhando para o fim, o motivo de um filho, as inquietações de irmãs, as exigências de uma mãe e “os olhos tristes, fundos e arregalados” de um fantasma. Um contributo particular, mas também geral, porquanto trata daquilo que permeia toda a experiência humana.


O universo ao qual nos remete a autora, nas várias narrativas, é o da família, seus encontros e desencontros, suas luzes e sombras e a forma como essa constelação familiar deixa marcas distintas em cada personagem. Quando observamos essas personagens, na condição fictícia, tudo parece real. Por outro lado, quando as analisamos sob o ângulo de uma realidade, elas navegam estrategicamente no terreno da fantasia. Todas vão bordando de mansinho seus fragmentos de vida.


Através do exercício da memória afetuosa, pois é o afeto que move a escrita, a autora conta coisas gerais e particulares, de um modo preciso, pungente, ajustadíssimo ao espaço infinito da palavra e do bom-gosto, com suas mãos seguras e habilidosas. Tudo muito bem tecido, com timbre contemporâneo, dentro do tempo ideal de cada história, onde o compromisso com a realidade cumpre o papel de elevar a vida naquilo que ela tem de inusitado ou comum, suave ou denso, triste ou alegre, claro ou escuro.


As vozes enunciativas, nos contos, reconstituem os acontecimentos que estão no íntimo, encastoados e persistentes, trazendo-os para a luz e para o ar e dando-lhes a liberdade misteriosa de chegar a outros íntimos, através desse dinamismo horizontal e fascinante da escrita. Tais são as considerações, no momento, sobre o recente e premiado livro de Marta Cocco, que certamente não esgotam todas as suas qualidades. Quanto ao mais, de acordo com os salmos, acabam-se os nossos anos como um conto ligeiro.