Concha Rousia 
(Santiago de Compostela, Galiza) é cultivadora da terra e da palavra: labrega, poeta e psicoterapeuta. Entre os seus livros publicados estão três romances, Nantia e a Cabrita d’Ouro (2012); e A língua de Joana C. (2006), e As sete fontes (2005). Um livro de poesia, Se Os Carvalhos Falassem (2016), e a participação em coletâneas, na Galiza, em Brasil e Portugal. Tem colaborado em jornais digitais com poesias, crônicas, artigos de opinião. É bibliotecária da Academia Galega da Língua Portuguesa e presidente pela parte galega do Instituto Cultural Brasil-Galiza.

ANIVERSÁRIO EM PARIS 

Ontem foi o nosso aniversário. Poderia falar de um monte de pequenos detalhes que dizem tudo de nós. Poderia falar da arquitetura do casal que vamos construindo e desenhando depois. Sim, por essa ordem. Já logo vai lá saber o que foi antes, se o ovo ou se a galinha.


Poderia falar de como nos quintais da nossa vida crescem frondossíssimas sequoias ao pé de delicados sorrisos. Há também aquelas ervinhas ruins que deixamos crescer de propósito para drenar os venenos que o tempo nos vai fazendo engolir.


Poderia reparar em muitas coisas. Por exemplo, poderia reparar no nosso jeito de continuar a sonhar juntos, de continuar a sonhar por separado. Somos dois seres individuais que juntos somam mais de um infinito.


Poderia lembrar aqui tanta coisa... mas decido não. Decido reparar apenas nos nossos primeiros pratos, trinta-e-um anos que essa baixela nos acompanha. São muitos anos, tantos que os riscos cor-de-rosa, azul e amarelo já não se percebem mais. Ficaram brancos como os nossos cabelos, e tão dignos, a conviver com os de Sargadelos.


Lembro a loja onde compramos essa nossa primeira baixela. Na rua da Caldeiraria de Compostela. A última vez que lá passei ainda estava aberta. Agora tenho medo de voltar lá e descobrir que se converteu em mais uma loja do chinês. Como aconteceu com a fábrica de guarda-chuvas da Rua do Vilar na qual compramos o nosso primeiro guarda-chuvas.


E agora que penso, sabes qual é uma das cousas que mais me agradam destes pratos? que nunca se partiram...

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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