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Clark Mangabeira
Carioca cuiabano, é doutor em Antropologia Social pelo Museu Nacional/UFRJ e professor adjunto de Antropologia da Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT. Graduado em Direito, Letras e Ciências Sociais, é escritor de ficção, tendo publicado contos e poemas em diversas revistas literárias e acadêmicas, e escreve enredos das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. 

CORPOS SEM TÍTULO

O médico foi claro no diagnóstico. Em tempos pandêmicos, inocência achar que seria diferente. O tratamento foi protocolar: vitaminas, água, repouso e um ou outro medicamento de eficácia pautada na (falsa) esperança. E o alvo de tudo – dos “remédios” e do vírus – foi essa coisa maciça, viscosa, conteúdo e continente de todos nós: o corpo. 
Sim, o corpo. Um corpo. Muitos corpos em um mesmo corpo. No caso clínico, um corpo momentaneamente continente de uma doença mortal. Corpo de um vírus. Porém, um corpo plástico, modelável pelas mãos hábeis da Ciência que bravamente tentam curá-lo. Corpo que ocupa espaços – leitos de enfermarias e UTI’s, corações de mães, abraços de amigos. Corpo que tenta respirar contra a imposição vidro-fosca dos pulmões doentes. Corpos partidos e repartíveis: pulmão, coração, sangue (Proteína C Reativa, D-dímero, hemácias, linfócitos, etc.), músculos, força. E esperança.
Corpos doentes e (às vezes) corpos sadios. 
Muitos corpos em um mesmo corpo-tempo. O corpo que agoniza contra um vírus também é avidez quando sadio em outras camas. Ali, na saúde que se deseja eterna, corpos com curvas entregues aos desejos de lambidas e carícias e chamegos. Corpos duplos-múltiplos unos. Um só, sendo dois. Divina díade. E braços entrelaçados entre cuspes e fluidos. Corpos que buscam sanidade na insanidade do gozo.  
Corpos pequenos e grandes, cheios e vazios, plácidos e duradouros. Corpos incorruptíveis, corpos decompostos, corpos construídos e reconstruídos, corpos que lutam e resistem. E, ainda assim, somos só isso, corpos: corpos corporificados...
... menos na Arte. Na Arte, corpos não são corpos. São almas. Almas-substâncias. Corpos-almas para nutrir outros corpos-corpos com aquilo que importa para a vida não concreta. Corpos oníricos, dos devaneios, do belo, do horror, do belo-horror, do horror-belo, de mim e de vocês. E nessa Arte cabe o múltiplo. Cabe tudo. Cabe todos. Cabe a bravura da tentativa de aliviar um pouco as vidas corporais e cabe a felicidade da saúde que se encontra no segredo das vontades das coxas. Almas-corpos, matéria-prima da artista, de quem maneja as almas(corpos) deixando-as com cheiro doce de jabuticaba ou duro de argila queimada.  
Corpos-almas-corpos-almas-corpos-almas e sobrou a gente, ansiando pelo que será criado para aplacar nossa simples materialidade, transformando-nos em vento ou poesia.
Corpos artisticamente moldados para que consigamos superar nossa condição corpórea.
Enfim, Arte, para que consigamos superar qualquer coisa.
Contudo, por favor, sem vacina, mantenham a distância – física – entre os corpos. 

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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