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Clark Mangabeira
Carioca cuiabano, é doutor em Antropologia Social pelo Museu Nacional/UFRJ e professor adjunto de Antropologia da Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT. Graduado em Direito, Letras e Ciências Sociais, é escritor de ficção, tendo publicado contos e poemas em diversas revistas literárias e acadêmicas, e escreve enredos das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. 

A DANÇA

Ilusão crer que ódio se baseia em intensidade. Não, a concentração e a precipitação são da ordem das reticências; seu sistema métrico tem por base anos, não horas; sua qualidade decanta em termos de continuação, a prazo, dolorosa, nunca de imediato. Aprendi isso nos braços do senhor de bigodes e de cabelo ralo que sempre me conduzia à praia. Era ali que ele se sentia seguro e onde gostava que as coisas acontecessem. Ele me puxava e eu o seguia fingindo serenidade no desespero do medo, golfando por dentro e pelas areias quentes até a água.


Sempre achei o mar do Leblon mais extasiante do que os outros. A praia coberta de banhistas que se lambuzavam em óleo, quentes, excitando o mundo do momento em que chegavam ao momento de irem embora. A caminhada até a água, com meu patético conhecido quase cliente de longa data, me dava medo. Ia de cabeça erguida, passos curtos, mãos grudadas, suando. Sabia que o cheiro de óleo serviria para disfarçar o que aconteceria no salgado, fazendo com que aqueles “inocentes do Leblon”, cegos por opção, não me vissem perdendo minha vida ainda criança, sob a coação desenhada a ferro e fogo das ameaças infinitas.


No embalo do mar, ele me segurava. Tocar os pelos do seu peito e sentir a gordura da sua barriga me davam náusea. Não era nojo, isso infelizmente eu perdera há muito, mas um desespero pelo fato de que eu tive que aprender a ignorar o que vinha a seguir exatamente para sobreviver a tudo aquilo. Os pelos dele molhados tocando os meus; o bafo quente embolorado disfarçado na minha nuca; sua respiração ofegante; a pressão da sunga sobre mim; os dedos; ele, de costas para os inocentes do Leblon e de frente para o horizonte proibido, chamando-me de um nome improvisado no possessivo, Minha “Maria”.


Era nas ondas que ele me tinha mulher e eu sem nunca receber a salvação prometida por um Deus lá de cima. Uma emigrante morta de mim que saciava aquele senhor sujo pelo e no tempo, calejado pelos nãos que recebera. No sal, eu encontrava a radiação ofensiva do chacoalhar das nossas coxas, que me arranhava mais do que a água. Não suportava a imposição de que deveria ter que amá-lo: na realidade, ter que fingir amor. O que tive e tenho é enjoo dele – a primeira vez a gente nunca esquece. Cambaleante, eu sabia na minha precocidade o que estava para acontecer, mas me permitia sempre achar que não. Com o tempo e as outras vezes, com a permanente falta dos olhares salvadores das testemunhas de Deus ou do Diabo – envoltos em suas próprias lambuzadas –, entendi que o medo não ajudava, sendo melhor focar na odiosa indiferença, à qual coube o resto do fiapo de mim. Para o bem ou para o mal, confiava nela e sentia o resto de esperança naquele fiapo, enquanto o farfalhar do bigode babado na minha clavícula sardenta assobiava o primeiro barulho de repugnância que conheci. 


Vários mergulhos forçados, seus toques em mim, minha pequena mão obrigada na sua sunga, a barba arrepiando-me de asco, o bailado das ondas ritmando o dançar dos quadris, a canalhice da indiferença, reduto do último suspiro. Ele me teve inúmeras vezes desde a primeira vez. Foi no Leblon que cresci, triste. Foi no mar que me tornei mais uma Maria, da Vida. Ele parecia nervoso quando acabava, esquecia-se de mim. Eu não. Nunca esqueci. 


Naquele mar, percebo hoje que sempre fui a puta de um cliente. Nunca, jamais de fato, o neto do meu avô.

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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