Clark Mangabeira
Carioca cuiabano, é doutor em Antropologia Social pelo Museu Nacional/UFRJ e professor adjunto de Antropologia da Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT. Graduado em Direito, Letras e Ciências Sociais, é escritor de ficção, tendo publicado contos e poemas em diversas revistas literárias e acadêmicas, e escreve enredos das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. 

TATO

 

A língua tamborilava ardente na boca, os lábios arqueados em uma felicidade extática. Cecília sempre fazia isso com a moça. Gozo mesmo, felicidade contínua que descia pela garganta a cada toque de Cecília na alma da companheira, penetrando-a. A moça sorria com Cecília em suas mãos. Não cansava daquela companhia de sempre, quente, hipnótica. As pernas semiabertas no sofá, o sorriso teimando em não desaparecer do rosto, o pescoço arrepiado, os pelinhos do braço levantados: não cabiam em palavras a paixão que Cecília despertava. 


A moça a conheceu poucos anos antes nos corredores da biblioteca da faculdade. Amor ali mesmo, em um cantinho vazio, secreto. Cecília impregnou-se em cada centímetro da moça, cuja inocência, agora, debutava. O jeito da amada fazia a menina salivar, pingando por dentro. Dali, foram várias as noites apaixonadas embaixo das cobertas, esconderijo para todos os pecados. O amor crescendo, a menina entregando-se cada vez mais, Cecília permanente em sua vida. 


O conhecido êxtase voltava a cada ida à Cecília e, agora, naquele sofá, não era diferente. Sentia queimando-a as vísceras na paixão infernal dos mortais. Com o passar dos anos, desde aquele primeiro encontro às escondidas, a moça – inocência perdida – tinha conhecido várias outras e outros, mas Cecília mantinha-se o refúgio de prazer incontornável. E o sofá, naquele instante, era a testemunha da respiração ofegante que acompanhava o clímax. Como dito, gozo mesmo, não havia outra palavra, gozo farto entre duas velhas conhecidas inseparáveis, gozo pleno de satisfação. Ah, Cecília! Não pare nunca!


Ao fim, educada, recompôs-se. A moça, depois de tudo, fechou os olhos por alguns segundos, respirou fundo, acariciou Cecília e decidiu insaciável que queria mais. Levantou-se decidida, Cecília sempre nas mãos, indo até a estante deixar sua amada para outro momento. Amor, quando vem, pode trazer tanto mais e, agora, ainda em vontade, a moça sentenciou: seria a vez de Drummond. 

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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