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Clark Mangabeira
Carioca cuiabano, é doutor em Antropologia Social pelo Museu Nacional/UFRJ e professor adjunto de Antropologia da Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT. Graduado em Direito, Letras e Ciências Sociais, é escritor de ficção, tendo publicado contos e poemas em diversas revistas literárias e acadêmicas, e escreve enredos das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. 

DO OUTRO LADO

A respiração ofegante, o cheiro das rosas embriagando-a, os olhos marejados pela realidade da separação, a dor que subia pelas canelas, formigando o corpo inteiro. Maria não acreditava. Não queria acreditar. Ela chorava baixinho não aceitando o fim, a solidão que rondaria sua vida a partir daquele instante de plena escuridão. A tampa do caixão, à sua frente, confirmava os temores, densos, alcançáveis com um inspirar mais profundo. Sabia que era a hora da despedida, mas como continuar? Como viver, sem todo o resto? José, longe do alcance, já em outra vida, sem ela. José, quem sabe ainda servindo, lá do outro lado, as mesas de um bar parecido com aquele onde se conheceram, enquanto ela, ali, quieta, miúda, lembrando-se das bebidas não lhe servidas, nunca mais lhe servidas. Será que José sofreu? Afinal, ele insistira na caríssima cirurgia, beijara suas mãos, e partiu para esperá-la do outro lado, do lado de lá da tampa do caixão, talvez mais feliz, ela não saberia. Cabisbaixa, por entre dores e lembranças, Maria tentou se mexer, sentindo o despertar da ansiedade crescente, da falta de ar cada vez mais presente, do medo do futuro, dado como certo pela ausência do tudo e do todo.


José?!


Finalmente com a chegada do desespero, arranhou, inutilmente, a tampa do caixão: no escuro, pelo lado de dentro.