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Clark Mangabeira
Carioca cuiabano, é doutor em Antropologia Social pelo Museu Nacional/UFRJ e professor adjunto de Antropologia da Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT. Graduado em Direito, Letras e Ciências Sociais, é escritor de ficção, tendo publicado contos e poemas em diversas revistas literárias e acadêmicas, e escreve enredos das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. 

ROMA

Amou-a instantaneamente. Amor à primeira vista mesmo, daqueles de novelão das nove, mocinha e galã. Amor sem ressalvas, miúdo e gigante, ela brilhando, resplandecendo sede por nova saliva, preferencialmente a dele. Amor de Carnaval, Páscoa, Festa Junina e Natal. Duraria até depois do Ano Novo. Ela gostaria de Nescau, ele, de Toddy. Ela preferiria os Rolling Stones, ele, os Beatles. Ela amava Chico, ele, Rita. Ela falava biscoito, ele, bolacha. Ela, prata, ele, ouro. E se encontrariam juntos, no meio, na várzea entre os polos, no caminho intermediário entre o passado e o futuro, fazendo do presente o único momento em que escutariam, no deslizar das noites, suas preces para que não acabasse nunca. Nunca. Aquele amor que poetas não ousavam escrever, mas que fingiam compreender com a seriedade dos doutores. Amor de Dia dos Namorados, um, metáfora, o outro, metonímia, ambos do mesmo texto a quatro mãos que segue, duas canetas escrevendo o futuro. Ah, e como seria bonito! Fins de semana largados na cama, colchas testemunhas do amor transpirado, gozado a base de cuspes e risos – altos, para que os vizinhos ouvissem. Casamento cafona, filhos, netos e todo o clichê de sempre. Paixão e amor entrelaçados pelo fio da meada da história que começava ali, naquele olhar, primeiro indiferente, depois crente, ajoelhado diante da magnitude de tudo que se iniciava e... pronto!


Não sem susto, a mãe batera à porta e o celular do menino deu um pulo. Ele passou o perfil dela sem querer para o lado errado do aplicativo, desapercebido, cabeça nas nuvens. Besteiras de mãe e filho, algo sobre o jantar e fim. Porta fechada. E a moça, a do amor infinito, a dos domingos no sítio da família, a que viajaria com ele do Oiapoque ao Chuí, foi-se embora para sempre, até outro golpe de sorte, quem sabe? 


Só restava ao menino a ansiedade do talvez, do torcer, do desejo de amanhã. 


E imaginar.  

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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