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Caio B 
É o nome literário de Carlos Benedito Pinto. O autor é professor de Língua Portuguesa e Inglesa no Ensino Médio e Fundamental. Graduado em Letras e Publicidade pela UFMT e Mestre em Estudos Culturais pela FCA-ECCO-UFMT, pesquisando a circulação do Siriri e do Cururu no contexto rural e urbano na Baixada Cuiabana. Atua como Servidor Público do Estado de Mato Grosso, exercendo as funções de professor, diretor escolar e coordenador pedagógico, desde 1998. Multi-instrumentista, atua, ainda que esporadicamente, na cena de música alternativa autoral da baixada cuiabana, compondo e apresentando com o nome artístico “caio.b”. Nesse mesmo contexto teve outros projetos musicais como “exmachinna” e “malesdeanto”.  Nascido e vivendo na cidade de Santo Antonio do Leverger, que chama carinhosamente de e “Vila”, ama as manifestações culturais populares assim como a cultura urbana alternativa.

CORAÇÃO MECÂNICO

A banda marciana passava exuberante com vistosos uniformes violetas que ornavam com o purpúreo pôr-do-sol assim como, suavemente, contrastavam com o tom azul-esverdeado da pele dos músicos.


Estava quase que contente. Esboçava, inclusive, um suave levantar dos cantos da boca que ameaçava virar um quase que sorriso, desses mais parecidos com um deboche cínico ou ameaçador. Descendo jornal com a intenção de ver a cena completa percebe, com sua visão periférica, um olhar curioso, questionador, por cima dos óculos escuros:


- Rindo de quê? 


- Engraçado!


- Sei... Mas o quê?


- Ah, uma banda marciana participando de um desfile de bandas marciais tocando “A banda” do Chico Buarque!


- Coincidências, não?


- Redundante, talvez!


Acomodaram-se no banco para terminarem de assistir. Ele colocou o jornal dobrado do seu lado e ela não tirou os óculos. Ao falar olhava por cima dos mesmos segurando com uma das mãos uma das hastes dos óculos dando um, talvez equivocado, quê de superioridade. Uma mistura ambígua de charme e cafonice. A praça artificialmente bucólica, o ar artificialmente fresco e puro, a presença daquela moça-senhora, tudo era impecavelmente sentido através dos neurotransmissores e chips que o amparavam para perceber a realidade. Esqueciam-se talvez estarem numa daquelas redomas que se tornaram uns dos últimos refúgios depois da irresponsável hecatombe que os obrigava a usarem máscaras fora daqueles paraísos artificiais. Apesar do pouco espaço das cores difusas e diferentes da velha Terra de guerra. Apesar de tudo, era melhor que a aspereza da vida dos párias e revolucionários ressentidos. 


A presença dela tornara-se descomunal, preenchendo todo o espaço, sufocando-o. Tenta aliviar:


- Eles aprenderam rápido demais. Não tem medo?


- Como? - Ela parecia estar em outro lugar.


- Os azuladinhos. Desde que entramos em contato, eles vêm se metendo a ser gente muito rapidamente! São muito inteligentes! Mas não são gente como a gente.  


- Tem medo de pessoas inteligentes?


- Pessoas? Mas eles não... Não! Sim...Quer dizer...  E se eles forem superiores a nós? Se quiserem dominar a gente? Sei lá...
- Bobagem! Adoro gente inteligente!


O papo não ia. Sentiu-se menos inteligente ainda do que sempre se imaginou. Nunca se achara inteligente. Talvez negligente, mas inteligente... Era uma senhora-moça muito bela e de poucas próteses, talvez. Um silicone apenas, quem sabe... Imaginava.


Ele, de coração artificial novinho, via o mundo com um olho biônico, outro humano ampliado por lentes. Tirando os pinos, implantes, motores, amplificadores, exautores, drenos ...


Subitamente ela se vira para ele e começa, numa desenvoltura desconcertante, a contar-lhe as desventuras amorosas que vivera até ali. Que chegara aos sessenta naquele dia e se conservara com dietas, ginástica, meditação, musculação, terapias, yoga pra nada. Falava também dos desprazeres que tivera com os homens. Seres mesquinhos, na sua cafajestice, que não conseguiram aprender nada sobre como agradar uma mulher, que, mesmo com todo o avanço tecnológicos, a humanidade apenas destruía a si mesma. Contara tudo de supetão! Meio sem jeito ele questionou a possibilidade dela estar exagerando. Que tudo é questão de diálogo, de vivência. Que não existe esse negócio de certo e errado, bem e mal. Que somos complexos. Que não existe bem essa coisa da tampa certa da panela, outra metade da laranja, de alma gêmea. No fundo sem convicção, talvez pelo hábito machista, encarregado de agradar, de flertar, arriscar a sorte em algum affair. Apenas um subterfugio para simular algum tipo de polidez donjuanesca, talvez.  Ela argumentou por mais meia hora e começaram a concordar com certas coisas da vida. Depois se calaram...


Anoitecera subitamente, num silencio desconcertante! Ela tira os óculos escuros e começa então a rememorar lembranças suaves de sua vida. Dos dias de alegres desocupações. Filmes, livros, discos amores que se foram pra sempre. Da vida antes da pandemia. De um mundo bom.


Começou a sentir uma coisa que não sentia há muito tempo. Como se seu peito se inflasse de esperança do viver. De perceber que em sua vida sofrida também havia reminiscências suspirantes. Que, apesar de sua conduta exageradamente neurótica e passional que o levou à vícios, doenças e acidentes imbecis, também havia momentos simples e felizes de deitar na grama e olhar o sol com alguém especial. Apenas ouvia. Sinapses errantes, neurotransmissores trabalhando desesperadamente, coração bombeando, mecanicamente, sem controle.  Ela é fantástica! Exautores, drenos, nano robores, hormônios, humores, neurotransmissores, reação em cadeia...


Começou a passar mal. O médico disse-lhe que deveria evitar qualquer situação de estresse que alterasse subitamente seu estado emocional durante o resguardo da operação até o coração habituar com seu ritmo. Deveria ficar em repouso, evitar emoções, evitar multidões.  “Médico imbecil! Evitar emoções! Meu coração não é mecânico? Por que raios eu haveria de sentir emoções então?”


Sentiu os derradeiros rufares de tambores ruidosos, dissonantes talvez dalguma banda ou de seu mecânico coração.


Em minutos apareceu nave-ambulância solicitada pela senhora-mulher atônita, em volta com uma ex-vida. Acomodou o corpo no veículo e partiu. Deixando para trás uma velha senhora com um rosto de menina, chorando por dentro! 

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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