Caio B 
É o nome literário de Carlos Benedito Pinto. O autor é professor de Língua Portuguesa e Inglesa no Ensino Médio e Fundamental. Graduado em Letras e Publicidade pela UFMT e Mestre em Estudos Culturais pela FCA-ECCO-UFMT, pesquisando a circulação do Siriri e do Cururu no contexto rural e urbano na Baixada Cuiabana. Atua como Servidor Público do Estado de Mato Grosso, exercendo as funções de professor, diretor escolar e coordenador pedagógico, desde 1998. Multi-instrumentista, atua, ainda que esporadicamente, na cena de música alternativa autoral da baixada cuiabana, compondo e apresentando com o nome artístico “caio.b”. Nesse mesmo contexto teve outros projetos musicais como “exmachinna” e “malesdeanto”.  Nascido e vivendo na cidade de Santo Antonio do Leverger, que chama carinhosamente de e “Vila”, ama as manifestações culturais populares assim como a cultura urbana alternativa.

DESTINO

– Num dizem que Ele sabe di tudo que vai acontecê? 


Olhei para a direção de onde saía aquele enunciado. Fitava-me com olhos pesados, demasiadamente fixos, aquele senhor com um chapéu de lona gasta que lhe tapava boa parte do seu rosto curtido de sol. Aqueles olhos, ébrias janelas-vivas, inquirindo-me resposta rasteira, retórica, salivar. Descansei o meu copo de cerveja morna no balcão e polidamente murmurei um ríspido ‘sim-boa-tarde-de-nada’ padrão inferindo-me que tal resposta fria pudesse provocar desconforto suficiente para repelir aquele senhor encardido de vida, livrando-me de uma possível impertinente prosa. 


 – Acho que Ele deveria prevení nós de fazê bobáge, já que Ele sabe di tudo. Num acha?


Fiquei meio sem jeito com aquela conversa. Fiz-me de tonto. Tinha uma quantidade considerável de infortúnios para resolver naquele resto de dia e estava simplesmente mais bêbado que o planejado. O que eu menos desejava naquele momento era entrar em uma disputa religiosa, política ou filosófica.  Justo eu que nunca me dei ao trabalho de imaginar como deuses ou filósofos poderiam me ajudar! Nesse tempinho de mundo vivido percebera as tantas coisas que as pessoas podiam fazer em nome da filosofia, política ou da religião! Aguar uma tarde, estragar um dia, ferrar uma vida, detonar uma comunidade, destruir uma cidade, exterminar uma etnia, inventar um continente... A mente estava itinerante, regozijante até. Tudo corria célere e alcoolizado. O que eu menos desejava ali era algum ideal fastidioso... Talvez esse seja o calor deste injustificável caldeirão no meio de um país tropical, onde uma garrafa de cerveja, mesmo saindo do freezer, jamais ficará devidamente condicionada, onde mesmo o mais potente aparelho de ar-condicionado, funcionando em pleno vigor, conseguem climatizar alguns lugares.  Já procrastinava meia hora da minha injustificada existência ali. Desprezava silenciosamente aquela presença impertinente. Um destino! Ele desejava uma régua para o seu destino!  Como se o ente mais poderoso na sua mente, criador dos céus e deste pontinho azul no imenso cosmo, tivesse a obrigação de ajudá-lo a controlar o seu livre arbítrio! 


O seu olhar pesado e fixado em mim causava-me uma agonia inexplicável. Minha visão periférica instintivamente tentava capturar algo que me aliviasse daquele desconforto. Ele ainda perscrutava... Esperava... Senti-me invadido, sensação excruciante, por aquela figura esperando uma reposta alentadora que realinhasse sua existência. Talvez eu conseguisse uma resposta adequada aos seus anseios ele sumiria daqui... 


Meu olhar desfoca e se perde ao fundo onde se acomoda uma garota que destoava completamente do ambiente. Voltei o foco àquele rosto árido e sofrido, em primeiro plano, e questionei-me: “Para onde diabos foi o tempo quando simplesmente reclamava-se do tempo para puxar assunto?”


- Acho que sim, - precipitei incauto - Já que Ele sabe que algo vai dar errado, custa dar uma mãozinha a um filho dEle? – Apostei.
Virou para mim rindo amarela e desdentadamente feliz. “Pronto, emplaquei uma resposta apropriada”, presumi.


- Também já tava passano do limite. Aquele puto me tratava como um cão. Mandei ele tomá naquele lugá. Agora tô pensano nos meu. Como vou chegá em casa e contá? 


Peneirei as informações e, aproveitando a oportunidade de ângulo para focar na figura de moça clara que apreciava seu suco ao fundo, fiquei na dúvida sobre o que responder. Dou-lhe todo aval divino e encerramos as questões, chorando? Entro numa quizila marxista e terminamos nossa conversa de filosofia de bar, revolucionando? Pago-lhe uma dezena de bebidas e dou-lhe uma solução vespertina para a vida, enganando-nos? Inferi que ela tinha seus 19 a 23 anos. Não era uma beldade nos termos midiáticos, o que nunca me importou de verdade, mas denotava uma estética que encantava meus olhos. Tinha, além da beleza, uma força que não se resumia ao aspeto físico, apesar deste deixar-me anestesiado. Essa força chegava, até meus sentidos gastos, de uma forma arrebatadora. Prendia-me como se eu fosse um animal não orgânico. Uma singularidade mecânica, intelectiva e selvagem. Iludia-me a ficar ali olhando-a. Por isso mesmo decidi delongar a conversa com meu interocular para ficar ali para prolongar a sensação. 


- Mano, essas coisas acontecem mesmo! Fica assim não! Há males que vem para o bem!  Quer tomar mais uma comigo?  


Ao enunciar essa frase, enunciando-a dessa forma, aportou-me um agudo arrependimento. Mas estava engajado na minha nova empreitada de ficar mais algum tempo admirando aquela figura de piercings e cabelo de franja laranja. Sentia-me absurdamente idiota. Nada me faria desejar tocá-la, pensava. Nada. Apenas apreciar... Parecia-me uma programação robótica! Um quase que décimo primeiro mandamento! Um destino! 


-Opa! Brigado! Tava precisano de tê alguém prá conversá.


Senti-me estranhamente confortável com aquelas palavras.  Estranho eu sempre me sentir uma espécie de encontro entre vários mundos e ao mesmo tempo não participar de nenhum mundo. Sedimentei algumas verdades pessoais continuo, porém a sentir o mundo pulsando em inúmeras outras verdades que reluto a desconsiderar. “Sou egoísta, quero tudo isso pra mim...” Parece até um brado juvenil pichado em alguma parede de alguma instituição educacional juvenil. Enunciado ardente, ansiando logo a fase adulta que, para o bem ou para o mal, define alguma finalidade para esta única e patética existência. Entretanto trata-se apenas de uma frase mal escrita por mim mesmo, um verso longínquo que nunca irei lhe mostrar, caro provável leitor. Aquela distante aventura literária imatura revelando, numa sintaxe errante, uma agonia na relutância de ser, (e) simplesmente ser. Acredito que todo mundo já aventurou escrever para aliviar a existência, sintomaticamente sem razão. Vamos botando motivos no caminho tirando e isso é bom! Invejo alguns sortudos que se acham que são predestinados, abençoados e iluminados. A última bolacha do pacote. Ah, pudesse eu estar abrigado por essa reforçada estrutura óssea, dessas abençoadas vísceras, rígidos músculos, nessa delicada pele... De estar sentindo esses fluídos hormonais de regularidade e equilíbrio de mecanismos suíços mover dentro de mim... Inveja desses iluminados! Cheios de tantas verdade, cheios de tantas certezas! Mas sou doente, esquálido, desengonçado, bipolar e, sem nenhuma explicação. Muito triste.


Chamei a atendente, pedi mais um copo e mais uma cerveja. Tomando um gole, surpreendentemente eficaz, tentei puxar um papo mais confiante com aquele ser que esnobava a sociabilidade meteorológica. 


-Tem feito um calor, hein? Ainda bem que existem brejas pra refrescar!


- Tá um calor dos inferno memo! Ainda bem que saí daquela construção. Onde já se viu? Nem sombra tinha!


- Com o tempo a gente acostuma. Tá quente em todos os lugares mesmo. Eu vou pro sítio hoje e lá é muito quente. Ainda bem que tem umas mangueiras... o rio...


- O sinhô tem sítio? Que baum! Faz tempo que não vô no sítio do meu irmão! Também aquele porquêra ficô rico e esqueceu da gente!


- Não é bem sítio... É um terreno meio grande na beira do rio com uma casinha que ganhei de meu pai. Desço algumas vezes lá no final de semana. Hoje tenho que ir pra resolver o negócio da bomba senão o pessoal lá fica sem água. Estou esperando abrir a oficina onde mandei consertá-la. 


Aquele sujeito estava vivendo uma briga interna com uma claridade de mil sóis. Não queria que a ideia uma disputa de classes me levasse ao desespero novamente. Mesmo porque aquela cor de pele brancamente perfeita para as tatuagens que pululavam na minha mente, a natureza tanto biológica quanto espiritual, da minha visão, escravizava-me naquele ambiente. Ficava focando e desfocando minhas pupilas num prazeroso jogo. 


- Mas o senhor pesca lá? Faz tempo que não pesco. Antes eu costumava ir com meu fio pra bêra do rio...


-Pesco sim. Vou com meus amigos. Mas por que você parou de pescar? É tão bom! Nem precisa pegar nada, não. Só de olhar as águas moverem já me sinto aliviado. É como se as águas levassem todos os meus problemas. Convida ele! Poderíamos pescar algum dia lá, oras...


- Num dá não. O tempo que tenho quero relaxá, tomá umas. Trabaio muito pesado com o tempo deixa gente preguiçoso pra fazer essas aventura que cansa a gente ainda mais. Notro dia fico um caco se farreá o dia intero.  Numa aguento mais farra. Cabô o home! Ainda fui umas vez com meu fio, mas ele cresceu agora e só quer sabê de festa. Os menino de hoje em dia num qué sabe de coisa de gente veia, da roça, do sítio. Qué sabê desse negócio do fanqui, zapzap...


Ficava olhando a boca dele mexendo sem prestar atenção nas palavras que proferia. Um fechar e abrir de boca com lapsos temporais dado a grande quantidade álcool inconsequentemente ingerido. Estava absorto com a minha visão de fundo. Em quais mundos ela viajava lendo aquele livro grosso de fantasia, tão na moda estão hoje em dia, a que se dedicava ali com tanta paixão? Por qual razão de vez em quando aproximava o livro do rosto de maneira que me impedia ver seu rosto, deixando-me aflito? Por que estava naquele lugar onde havia apenas alguns moleques jogando fliperama e alguns senhores estragados pelo tempo, como eu, bebendo alguma coisa alcoólica? Certo, serviam sucos, tinha uma senhora com duas crianças ranhosas comendo um salgado gorduroso ali, mas ela certamente destoava de tudo. Sua brancura, como um clarão de relâmpagos, invadia meus sentidos. Sons de sirenes. Estávamos ali num universo de peles curtidas pelo sol.  Rostos enrugados, peles precocemente carbonizadas pela necessidade da lida, digladiando com a desumana incidência solar e conservação de calor neste caldeirão dos infernos. Aquela delicada pele branca era quase um insulto à nossa paleta de cor que variava do bege escuro ao preto. Não seria absurdo imaginar que alguns olhares mais repugnavam do que aplaudiam aquela presença encantadora. “Prendam-na imediatamente, pois está a nos insultar com essa insonsa brancura!” Exclamariam talvez esses exultantes inquisidores por justiça epidérmica, imagino. 


- Fico pensano...


Nem sei qual foi o intervalo da última fala dele. Nem sei quanto tempo fiquei em silêncio desfocando a visão do rosto dele para observar a moça nos fundos do balcão em “L”. Nem sei quanto tempo ele ficou mudo, fitando o seu copo. O tempo tornou-se um artefato bizarramente fluido agora. 


- O povo fala que é mais fácil um camelo passa no fundo duma agúia do que um rico entrá no céu. Será que Seu Robervardo vai por inferno. Num acredito!


- Quem é Seu Robervardo?


- Meu ex patrão. De quem falei agorinha... O nome dele. 


- Não saberia responder essa pergunta, pois não estou certo que concordaria totalmente com essa ideia... 


- O sinhô num acredita no céu? Num acredita ni Deus?


- Não é bem isso... – Esquivei – Acho que todos merecemos uma segunda chance...


- Tomara que num seja verdade. Num desejaria isso a ele. Que ele fosse pro inferno... Daquele jeito...  De vez em quando ele era bom. Duma vez deixô nós pega os restos da carne de sobrou do churrasco da impresa e levá pra casa. Às vezes ele era bom.


Uma agonia estrangulava a minha garganta. Para que tanto sofrimento? Para que tanta humilhação? Por que imaginar ser um ato de bondade dar migalhas que iriam se perder ou ser jogado aos cães? O crescente som das sirenes ao fundo aumentava a minha agonia. E essa necessidade de se apegar a uma outra vida na qual supostamente a alegria e a bonança viriam? Por que querer vingar dos que nos afligem aqui condenando-lhes a um provável lugar de sofrimento, num improvável depois?  O que eu menos desejava naquele momento era alguma quizila religiosa, política ou filosófica. As sirenes lancinavam, como se aproximando. Subitamente, a minha moça fecha o livro apressadamente, sai nervosa... No meu íntimo ela estava sendo o único motivo de eu ainda estar ali... Fiquei sem chão. Foi como se desligassem algum botão em mim... Não desejava nada ali além do silêncio. Queria desligar a minha mente. Pane! Acalmei-me um pouco e respondi: 


- Acho que todos nós temos o nosso lado e nosso lado ruim. E, acredito, que às vezes, o Seu Robervardo não deixava você em paz porque, de repente, alguém pagava ele pra ele não deixar vocês em paz. Entende? Sempre tem um com mais dinheiro, que é dono de alguma coisa, e, por isso, manda no outro. E, quando a gente vai ver, as pessoas por perto que você achava que mandava em alguma coisa, não mandam em nada. Já parou pra pensar? As pessoas são às vezes boas e às vezes ruins. Só estão cumprindo as funções a elas designadas, talvez de uma forma desumana, mas isso não significa que são ruins pois no fundo querem alguma coisa boa. Não entendo realmente o porquê de algumas serem recompensadas e outras punidas por viverem suas vidas não solicitadas...


Tudo saia de minha boca sem nenhum controle ou planejamento. E ele quieto...

 

Seus olhos estavam fixos no seu copo engordurado. Imagino talvez que pensando no fato de que aquela conversa teria que terminar e ele precisaria encarar a realidade com sua família. O que eu menos desejava era entrar numa quizila... As luzes das viaturas invadiram o local. Minha mente desligou-se. Eu não mais ouvia sons. Ficava observando, hipnotizado, com as luzes refletiam no meu copo. Um caleidoscópio mudo e sereno. Olho para o lado. Dois policiais falam nervosamente com meu interlocutor. Pegam os braços dele e o algema com muita violência. Eles falam esbravejando, denotando, na expressão, muito ódio, saliva saindo de suas bocas... Meu interlocutor, fecha os olhos, empurram sua cabeça contra o balcão. É depois violentamente puxado pelos policiais. Seu chapéu cai. Ele olha pra mim.

Nunca mais consegui tirar da minha cabeça aquela expressão sofrida.

 

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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