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Caio Augusto Leite 
Nasceu em São Paulo em 1993. Mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP) com dissertação sobre A Paixão segundo G.H., de Clarice Lispector. Integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018, na França e na Bélgica, a convite da Universidade Sorbonne. Teve textos publicados nas revistas digitais escamandro, A Bacana, mallarmargens, Vício velho, Lavoura, Subversa, Literatura & Fechadura e Alagunas É autor dos livros Samba no escuro (Scortecci, 2013), A repetição dos pães (7Letras, 2017) e Terra trêmula (Caiaponte, 2020), além de colunista da revista digital Ruído Manifesto.

Aliás, só sei ser prolixo. Entende agora a minha solidão? É um peso de papel sem papel pra segurar: sirvo a um propósito maior? A sinuosidade é um perigo. Sou rígido pra não morrer sorrindo. A pontualidade me sufoca. Se eu pudesse me atrasar de mim: mas estou sempre aqui. Agora o relógio marca o tempo que só pode ser tempo enquanto não é mais. Sinto minhas mãos se esvaziando de algo que não pude acariciar direito. Aprendi a não me acostumar. Eu que já beijei sua boca que foi já beijada por outro e será mais beijada no futuro: ninguém o primeiro – o primeiro nem sabe que foi o primeiro e ser o primeiro nem é virtude: nem ser o último. Ninguém é ninguém. E todos somos. Então por que ainda penso na sua boca coberta de germes? Amar a carne é tão esquisito. Amar ainda mais o que não nos ama. Ah, a doce promessa de um mundo compartilhado. Preciso fatiar a vida para caber nela? Preciso que alguém me dê a mão pra atravessar a rua? O destino me atropela. Eu me extrapolo mas nunca me fujo. Eu queria não ter visto seu rosto nunca. Ter visto é tornar a ver sempre: a memória me trai. Me inspiro para sofrer: Musas diabólicas. Eu queria escrever o avesso disso: escrever pra esquecer. Luta contra o exaspero de não ter nada pra dizer. É que tenho esperança de ter talento: o talento pra diáspora. Estou sempre migrando. Este texto eu já estou odiando por não ter nada a ver comigo: como me arrependo quando te chamo e já não queria ter chamado porque agora você está olhando pra minha cara e eu não tenho nada pra dizer além do seu nome: aliás, eu sei alguma coisa de você além do seu nome? Seu nome não significa nada. Procurei no dicionário: você nem existe. Como pode me ferir ainda? Suponho que aquilo que não existe é o que mais faz mal. Se eu pudesse tocar seu rosto e saber que sua pele sua e seu coração bate como o de todo mundo. Mas agora essa sua imagem cristalizada: retrato na mesa de cabeceira. Você está mais velho do que era quando posou pra minha câmera. Eu queria te suprimir: e suprimir as frases. Nada sobra. Você não pensa mesmo mais em mim? Eu queria saber que você sofre. Mas seu sofrimento não me livraria de nada. Eu esqueci quem você é. Você não é mais. Nem eu. Então o caminho é sempre perda? Ah, os anos não trazem nada além disso: mais anos. O agora é somente agora: estou me arrependendo de perder a vida? Todos estamos perdendo algo: vou descobrir amanhã que não me serve mais aquela blusa que eu gostava tanto: ou que já não encontro mais aquele anel. Lembrar é uma coisa estranha, não? Como pode existir ainda no coração aquilo que não existirá nunca mais? Eu não sou agora exatamente o que eu disser. Faz tempo que não sinto saudade. Depois passa. E fico assim todo animado pra ir ao cinema e comer hambúrguer e pegar trem ouvindo música no fone de ouvido como se a vida fosse um clipe daqueles que passava na MTV e depois chegar em casa e descobrir que a privada tá entupida e que vou ter que cagar no vizinho e que a vida inteira é uma trama cheia de subtramas e conexões que não fazem o menor sentido. Ou fazem?