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Caio Augusto Leite 
Nasceu em São Paulo em 1993. Mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP) com dissertação sobre A Paixão segundo G.H., de Clarice Lispector. Integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018, na França e na Bélgica, a convite da Universidade Sorbonne. Teve textos publicados nas revistas digitais escamandro, A Bacana, mallarmargens, Vício velho, Lavoura, Subversa, Literatura & Fechadura e Alagunas É autor dos livros Samba no escuro (Scortecci, 2013), A repetição dos pães (7Letras, 2017) e Terra trêmula (Caiaponte, 2020), além de colunista da revista digital Ruído Manifesto.

Sempre disseram que “mim” não conjuga verbo. Mas nunca deixei que dissessem perto de Mim. Mim não era eu: Mim era alguém: Mim era além de mim: Mim era minha melhor amiga: em quem posso confiar, além de Mim? Em ninguém. Então nunca deixava que ela soubesse. Mim se livrava da verdade e ficava livre pra ser o que queria. Mas se eu podia confiar em Mim, o contrário não fazia sentido. Mim não podia confiar em nada. Houve o dia em que não pude salvar a Mim do grande risco. Foi em uma dessas aulas monótonas de língua portuguesa. Alguém soltou a pérola antigramatical diante da canhestra professora: professora, ele mim bateu. Todos na sala riram, me contaram depois. A professora irritada, com o aluno que batera no outro e no outro que batera na língua portuguesa, suspendeu os dois, mas não sem antes dizer: e que todos aprendam de uma vez “mim” não conjuga verbo. Ao ouvir isso Mim paralisada. O lápis caiu no chão. Todos chamavam e Mim não respondia: Mim não se movia: Mim não pensava em nada. Mim estátua de palavra. Estátua de gramática. Quando soube do que acontecera com Mim me penitenciei. Tentei de tudo e nada de ela voltar. Médicos foram chamados. Religiosos de todos os credos. E nada. Mim de rocha. Comovidos colocamos Mim no pátio do colégio. Entre pombos e papéis velhos: Mim monumento. Não sabíamos o que fazer com Mim: culpávamos a professora: maldita parnasiana. Choramos por Mim por todo o ano. Até que veio o dia em que encontrei salvação pra Mim. Contrariando a professora que detestava que a gente lesse textos modernistas, roubei da seção proibida um livro de Bandeira e encontrei o seguinte trecho que transcrevo “Não há nada mais gostoso do que o mim sujeito de verbo no infinito. Pra mim brincar. As cariocas que não sabem gramática falam assim. Todos os brasileiros deviam de querer falar como as cariocas que não sabem gramática.” Abri o livro diante de Mim e disse o fragmento e Mim piscou os olhos, repeti o trecho e Mim abriu a boca, chamei vários amigos e juntos fizemos coro e Mim moveu os braços, e o coração de Mim bateu de novo e Mim andou e Mim correu e Mim me abraçou e Mim deu um beijo em mim. Daquele dia em diante nunca mais soube sofrer de palavra: eu dizia o que queria e Mim conjugava o verbo amar. Daquele dia em diante nunca mais deixei de ter amor por Mim.