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Caio Augusto Leite 
Nasceu em São Paulo em 1993. Mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP) com dissertação sobre A Paixão segundo G.H., de Clarice Lispector. Integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018, na França e na Bélgica, a convite da Universidade Sorbonne. Teve textos publicados nas revistas digitais escamandro, A Bacana, mallarmargens, Vício velho, Lavoura, Subversa, Literatura & Fechadura e Alagunas É autor dos livros Samba no escuro (Scortecci, 2013), A repetição dos pães (7Letras, 2017) e Terra trêmula (Caiaponte, 2020), além de colunista da revista digital Ruído Manifesto.

Primeiramente confesso. E fica confessado. Isso. Eu confesso. Pois a pergunta não é quem, mas como. Todos os crimes parecem querer ocultar seus autores. Sabemos sempre de antemão o que se roubou ou quem foi morto. E procura-se, pista por pista, o rosto do facínora. Impressões digitais, testemunhas, retrato falado. De fragmento em fragmento responde-se ao enigma. Mas se digo apenas: fui eu. Fica-se com a impressão de um vazio. Todos olhariam e não entenderiam. Pois ainda não fiz. Mas farei. Pois sei que não poderei passar a vida sem uma culpa por confessar. Pois é tão mais fácil dizer que sim quando não se sabe para o quê. Se eu soubesse que tinha roubado, matado ou ferido alguém, então nunca mais poderia dizer, teria que alguém dizer por mim e apontando o indicador me acusar: foi ele. Meu rosto se crestaria e cairia a minha vaidade e o meu sonso sorriso: por trás de toda ficção que eu armara como forma de viver, viria o rosto em carne viva, o sangue, os músculos, o osso. Um rosto como o fora antes do surgimento do Império Romano e da escrita cuneiforme. Arrancado à força o meu semblante rasgaria como rasga uma figurinha num álbum da Copa de 1998. O rosto de Zidane repartido, o pedaço que fica é então retirado com a unha, nunca mais saberíamos o que representava aquela imagem: o estilhaçar da forma. Melhor mesmo é se confessar antes, como quem tira uma máscara antes do fim dos festejos de Carnaval e fica no meio do bloco com a cara exposta sem que ninguém reparasse, acabada a festa, quando todos tornassem e se mascarar de cotidiano, então veriam que o rosto em carne viva não era um disfarce, o rosto era uma forma de comunicação. Vendo um rosto que não fosse um projeto de vida seria possível ver finalmente o momento que é agora e que não mais atua. O radicalmente atual é a vida que só se me prometia. E que no ser superior era situação inapelável. Por isso confesso. Para que quando tivesse que confessar não me escurecesse na mais pálida sombra de mim: para que eu não inventasse outro álibi que seria só o motivo do álibi seguinte. De álibi em álibi eu teria que fugir, como se foge de uma loucura inerente. Então por não suportar a ideia da fuga, para não sofrer nunca mais a perda desse algo que ainda será e que me delimitará num nome que poderia ser tanto de criminoso como de herói, na destituição desse nome ainda não dado, retirando a culpa antes de pecar é que confesso. Assim me livro do medo de uma loucura, de um crime, de um ato honroso digno de medalhas. Pois se eu continuar sendo um homem, ai de mim, como será quando terei que – sem escapar-me – precisar me renunciar? Mas se disse que confesso e nada me acontece é porque me cobram mais do que uma ideia, mas também um ato. Como me provar? Se ainda não experimentei do vil e não conheci da glória. É como estar morto sem ter morrido, posso ainda caminhar e exercitar meu sonho de liberdade. De nada me vale então a morte, se sofro e sonho. De nada me vale confessar se ainda não posso ser preso ou elevado a santo. Então não posso dizer a resposta antes da charada? Eu que sempre odiei esperar a conclusão da frase, eu que já lera todo o livro de “o que é o que é?” e decorara as fórmulas e me inquietava quando diziam “o que cai em pé e corre...” e eu dizia “Chuva” e olhavam para mim com olhar zangado: você nem me deixa terminar, caramba. Então me tornava tímido e mais tímido. Como agora que confesso e ninguém ouve. Então mais me endureço dentro de mim, e menos respondo quando sei, e menos levanto a mão quando perguntam em sala de aula o nome da capital do Nepal, ou quando na rua dizem que Grande Sertão: veredas é do Graciliano Ramos e eu nem ouso corrigir. Sinto, enquanto ouço os sinos da igreja, o silêncio que se alastra dentro do meu corpo feito mancha de água brotando do chão: úmida, úmida, umedecendo de bolor o corpo todo. Não como uma humildade de mártir, mas como uma mudez progressiva avessa ao falar da criança, até que restem apenas frases desconexas, palavras estranhas, sílabas quebradas, gritos, ganidos e choro. Até que reste o crime santo ou a magnanimidade maldita. Ambas inconfessáveis. Até que sobre o silêncio que é a expressão maior do ser. Até que venha a morte como um contorno que se faz sobre tal figura num livro e se encerra o desenho. E por mais que me pintem de azul ou amarelo, o que sou não mais será. E o que fui não mais se altera. Enquanto me emolduram no chão, o não viver me atualiza, como o acordar prova o sonho, como o acabar de um homem confessa sua vida.

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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