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Caio Augusto Leite 
Nasceu em São Paulo em 1993. Mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP) com dissertação sobre A Paixão segundo G.H., de Clarice Lispector. Integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018, na França e na Bélgica, a convite da Universidade Sorbonne. Teve textos publicados nas revistas digitais escamandro, A Bacana, mallarmargens, Vício velho, Lavoura, Subversa, Literatura & Fechadura e Alagunas É autor dos livros Samba no escuro (Scortecci, 2013), A repetição dos pães (7Letras, 2017) e Terra trêmula (Caiaponte, 2020), além de colunista da revista digital Ruído Manifesto.

eu quero partir sem remorsos
como os nossos dentes de leite
ainda intactos se desprendem da carne 
pois precisam dar espaço a outros
partir como quem não deixa rastros
navios na água lisa
sumir para o outro lado do agora
e nunca olhar para a cara
dos antigos conhecidos
pisar num país alheio
e na multidão virar pó
perder o nome os tiques
as impressões digitais
cometer um crime fatal
e não poder ser preso
pois indigente em todos os níveis
sair durante a noite
com as caravanas no deserto
para driblar a morte 
compor esse corpo novo
ausente, infalível

eu tenho esse sonho
com chuva e neon
hotéis, cassinos
dentro de um carro 
no banco traseiro...
fazendo curvas meio enjoado
sendo levado para o hospital
ou com sono chegando de uma longa viagem
as gotas de chuva embaçavam a luz
estrelas de van gogh
não sabia se estavam perto ou longe
o carro nunca chegava
continuava a ser guiado
sem que eu visse o rosto do motorista
há algo de fatalista nesse sonho
uma metáfora fácil sobre a imponderabilidade da vida
e o guiar impossível dos lances mais importantes dela:
talvez eu fosse naquele momento um recém-nascido
e o mundo fosse esse vidro embalado de luz sem foco
talvez fosse ali o meu último dia
o féretro na traseira do rabecão e a escuridão
dissolvendo a realidade 
eu sempre acordo subitamente desse sonho
nostálgico da alegria de ter nascido
amedrontado diante do inevitável sentimento de estar morrendo

não sou triste sem motivo
tudo tem razão
e nada é vazio
e o vácuo se atualiza
em espaço a cada passo...
que dou a cada espiral
que o universo gira
em expansão talvez eterna
não sou feliz sem motivo
tudo tem sazão
e acordo também alegre
e isso em nada altera
nebulosas se engolfando
no mais alto patamar celeste
não vivo não morro sem motivo
tudo tem tesão
e age sempre em direção ao fim
de mim, não de tudo
o mundo existe e não entendo
pois não preciso e não posso
se sou triste e alegre
se vivo ou morro
qualquer homem explica
por associações vazias
e próximas que tem das mãos
é em vão a dedução de um Ser
que não se altera
mas não tocamos
somos apenas sonhos
de um ente mais perfeito
e quando treme a terra
e quando dói o peito
são apenas pesadelos
que afetam antes a imaginação
e nunca o imaginante
que permanece ainda que
não sonhe ainda que seja sempre dia
e a luz esteja sempre a ofuscar a vida
ainda que seja Deus insone

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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