21.jpg

Adilson Vagner de Oliveira 
É professor na área de Linguagens do Instituto Federal de Mato Grosso, Campus Avançado Tangará da Serra, fez mestrado em Estudos Literários pela UNEMAT e doutorado em Ciência Política pela UFPE

TESTAMENTO

Em vida, gostei de pouca gente. 
Simpatizei-me por dezenas restritas
Afastei-me de vários conhecidos de infância, 
Tolerei algumas pessoas por imperativo do ofício.
Usufrui da rispidez em diferentes décadas consecutivas. 

Os dias me foram amargos por acolhimento próprio,
A raiva se mesclou ao oxigênio desde muito cedo, 
A respiração azeda se habituou ao ambiente inóspito, 
Enjeitar a vida me foi de contraditório agrado providencial

Renunciei ao livro verde de afazeres post mortem
Mas pude em vida elucidar os procedimentos de meus desejos
Aos sobreviventes de sangue e de afeto lhes discursei em demasia
Para que não se cometessem inconsistências dogmáticas no último encontro. 

As preferências de um falecido primam por atendimento ipsis litteris
Reservei aos presentes do momento a satisfação da partida,
Por isso, pleiteei minhas aspirações póstumas em avanço
Por uma questão evidente de ordem e planificação

Ao funeral, poupem-se de cristandades alheias e rezas avulsas, 
Poderão seguir todos livres de culpas espirituais por livrar-me de liturgias,
Usem-se de abraços fortes de apoio momentâneo e consolo recíproco
Lamentavelmente, estarei insensível aos afagos cutâneos.

Ao túmulo, assegurem a ausência de cruzes e anjos
Símbolos religiosos sempre me produziram asco, isento-me deles.
Ousem na arquitetura do jazido e nos materiais de cobertura rígida
Acabamento de cimento queimado dará o tom concreto industrial de agrado
Convertam em bebidas os investimentos em granito e mármore
Porém, façam festejos somente após a primeira semana. 
Necessitarei de um tempo curto para me estabelecer. 

Assegurei-me apenas dos recursos bancários para o dispêndio fúnebre 
Restou-me pouco a deixar para embates e conflitos fraternos.
Da residência, monetizem-na instantaneamente entre os resilientes
Do automóvel, atribuam-no aos familiares menos afortunados
Dos livros, compartilhem-nos aos interessados mais prudentes 
Antecipadamente, classifiquem-nos por ramos do conhecimento
Diversas aprendizagens do mundo estão lá dentro, multipliquem-nas

Das experiências degeneradas, avaliem-nas sob suas ópticas,
Julguem, adotem ou rejeitem todas elas compulsoriamente
O peso da consciência é a maior das assombrações da mente.
Por isso, recomendo de tempos em tempos essa leitura em detalhes.
A fim de satisfazer o mínimo dos desejos do coitado inativo. 
 

© 2019 - Revista Literária Pixé.

  • Facebook