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Bruna Marcelo Freitas 
É professora da Universidade do Estado de Mato Grosso e doutoranda do Programa de Pós-graduação em Estudos Literários da Unemat (PPGEL).

O CORPO-TRÁGICO: 
DE NIETZSCHE A COETZEE

Entendemos, a partir de O nascimento da tragédia, de Friedrich Nietzsche (2007), o trágico como a conciliação de dois princípios artísticos: o apolíneo e o dionisíaco. O ser é tomado pela dimensão configuradora de Apolo - as formas, a aparência e o sonho - e imerso no campo de Dionísio - a música, a dança e a embriaguez. De forma demasiadamente sintetizada, a tese central dos pensamentos nietzschianos repousa na afirmação desse duplo impulso, próprio da natureza humana, isto é, na afirmação da vida, com tudo o que nela há, desde as alegrias aos aspectos mais problemáticos e dolorosos.
Em Assim falou Zaratustra, Nietzsche (2018) dá vida a uma personagem que contesta a filosofia que se firmou a partir de Sócrates e Platão, sob égide essencialmente racionalista, e catalisa as questões fulcrais que envolvem o trágico. É Zaratustra! Aquele que enxerga o homem como o seu próprio corpo. Daí emerge a compreensão trágica do corpo. Trata-se da aceitação desse corpo em sua inteireza. A não fragmentação do corpo permite olharmos para ele e percebê-lo como extensão de uma unidade maior, o Cosmos. Chamaremos de corpo-trágico, pois, o corpo que não é bi, tri ou multipartido, que é totalidade e, sendo um, acha-se fundido ao todo.
Esse entendimento acerca do trágico parece simples, mas há, para muitos, alguma resistência ou talvez dificuldade em o apreender. É o caso da personagem Simón da trilogia romanesca do escritor sul-africano J. M. Coetzee. No primeiro volume, A infância de Jesus (2013), vemos o homem pobre, refugiado, que encontrou o menino Davíd na embarcação rumo a Novilla, adaptar-se a essa terra onde as pessoas vivem sob a regra do esquecimento do passado anterior ao desembarque. Simón encontra uma mãe adotiva para Davíd (Inés). Embora não fossem envolvidos amorosamente, Simón e Inés passam a desempenhar a função de pais adotivos do garoto. Davíd é uma criança imaginativa, criativa e questionadora. Frequentemente, acaba em atritos com as personagens duramente racionalistas que o cercam. Dentre estas, os professores em Novilla e o próprio Simón.
No romance A vida escolar de Jesus (2018), a incompreensão de Simón em relação à perspectiva sensível de Davíd se agudiza. Mas agora o menino estuda em uma escola (em outro município) que o compreende e atende aos seus anseios de ser. Essa instituição está longe de ser tradicional, é uma escola de dança e de música. Os alunos aprendem dançando e cantando, aprendem sentindo. Simón, extremamente racionalista, é alheio a tudo isso. Não entende como seja possível uma escola nesse formato, não consegue visualizar os conteúdos e não compreende as mensagens de Davíd. O fosso que se abre entre “pai e filho” torna-se gradativamente mais profundo. No entanto, Simón sente a necessidade de entender a linguagem do menino, que, para ele, soa como enigma. Comove-se ao ver Davíd apresentar-se dançando. Por fim, decide por matricular-se na escola do filho. A saída não é aleatória. A única maneira de entender o que Davíd diz é a partir da experiência colocada por meio da música, ou seja, no/pelo corpo. Há nisso uma sabedoria trágica, pois conteúdo e método são essencialmente trágicos.
De forma geral, a narrativa contempla a compreensão trágica de uma criança e suas vivências corporais, de feição igualmente trágica. Nesse contexto, é impossível, ao ler a passagem em que Davíd é tomado pela dança, não imaginar a magia do dionisíaco de que nos fala Nietzsche, na qual o homem canta e dança, a ponto de sair voando: “o ser que dança diante deles não é nem criança, nem homem, nem menino, nem menina; ele diria mesmo que é um ser sem corpo e sem espírito. De olhos fechados, a boca aberta, arrebatado, Davíd flutua pelos passos com tal graça fluida que o tempo se detém” (COETZEE, 2018, p. 245). A essa altura não se reconhece cisões, mas fusão, com o próximo, com a natureza, enfim, com o Uno-primordial. O homem deixa, assim, de ser artista e transforma-se na própria obra de arte.

COETZEE, J. M. A infância de Jesus. Tradução de José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
________. A vida escolar de Jesus. Tradução de José Rubens Siqueira. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.
NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. 1. ed. Tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia de Bolso, 2018.
________. O nascimento da tragédia ou helenismo e pessimismo. Tradução, notas e posfácio de J. Guinsburg. 2ed. 6reimpressão. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

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