Aryanne Rocha 
É cuiabana, formada em Relações Internacionais e com uma paixão sem fim pela literatura. Afirma que “ultimamente tenho tentado rachar a redoma de escrever para mim mesma e passado a escrever mais para o mundo. Meu poema nessa edição especial da Pixé é inspirado e dedicado ao Marcelo Campos, um amigo de Porto Alegre que nos últimos anos muito tem me ensinado sobre como usar minhas mãos, meus ouvidos e meus olhos todos a melhor captar e criar pontes aos universos das outras pessoas”.

DESVIOS

 

ele com as mãos abertas na altura do ouvido
veja só, querendo mãos em lugar de orelhas
de qualquer coisinha pequena feita para ouvir
os dedos ali se movendo como tentáculos
pegando para si
segurando por quanto tempo quisesse
qualquer som distraído no ar
olhava uma palmeira cheia de periquitos e pássaros pretos
talvez fosse essa sua curiosidade
verde e preto juntos, já pensou? por quê? de uma paleta inteira de cores?
ou estaria na verdade preocupado em como esticar ao máximo as palmas os dedos as unhas todas
a pegar a vozeria dos bichos
tacando-a para dentro de si
por mãos no lugar de ouvidos
os vikings não tinham palavra para a cor preta, queria lhe confidenciar
à cor do corvo diziam blár, sabia?
que é um azul muito escuro
essa a verdadeira cor do corvo e ninguém saberia
a não ser nós dois
mas não contei
queria que se virasse até mim
queria escutar sua voz
o que sairia da mistura daqueles sons roubados
a me segredar algum acaso
também demoraria a olhá-lo de volta
me concentraria em senti-lo perto
descobrindo-me as cores
o verde
o azul se transformando em preto
estaria solta em um canto bem baixinho meu
barulho que ele tentaria captar com seus
agora sim
longos ouvidos de mãos
então contou-me
que segurava a respiração quando pássaros de repente pousavam perto dele
primeiro percebeu que fazia sem pensar
depois pensando
não queria afetá-los com sua presença
nem fazê-los partir desagradados
será que não achava que os pássaros talvez tivessem um buraco perto dos olhos
suas patas fininhas ali enfiadas fazendo a função dos ouvidinhos que nunca tiveram?
talvez com elas recolhessem ruídos humanos
talvez fosse esse o vício secreto dos pássaros
fazendo-os desesperadamente voar longas distâncias, atravessando oceanos, migrações de dias
e pousavam mesmo por todo lugar para ouvir os sons dali
descansando rápido as asas gastas, as patinhas resfriadinhas dos ventos
será mesmo que achava que os pássaros pousavam
querendo ficar?
disse-me que um amigo seu ia embora de vez para outro planeta
ou era outra galáxia
lá onde poderia ser quem ele era
sem se segurar
não aguentava mais estar apertado em si mesmo
vivendo preso no canto da própria vida
e passando despercebido
em outras
foi quando percebeu que tinha olhos muito pequenos
minúsculos, embaçados
com eles não conseguia ver nada que ficasse um pouco longe de si
as anteninhas perdidas em lugar dos ouvidos
eram ambas quebradiças, desajustadas
não serviam para escutar o que era importante
as mãos que até então se ocupavam com coisas
foram embora de onde estavam
passearam seu corpo afora
enxotaram os pés, as juntas, os calcanhares
por ali se estabeleceram um tempo
eventualmente partiram tronco acima
chegaram aos ouvidos
substituíram os dois filetes que ali estavam
dali em diante otimizaria cada sentido seu
as partes estariam em constante deslocamento para outras regiões
teriam muitas funções
seu corpo cada vez mais competente
em não deixar nada escapar
procurava agora o que pôr em lugar dos olhos
precisava muito de ver
captar melhor
toda presença curta
esperando com isso
que elas fossem um pouco mais longas

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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