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Aparecido Carmo

Natural de Cuiabá, é jornalista e estudante de mestrado em Estudos de Cultura Contemporânea na UFMT. É coautor do livro “O obituário no jornalismo” ao lado de Paulo da Rocha Dias.

FONTE SEGURA

E ra um almoço de família (antes da pandemia) e os presentes conversavam sobre amenidades. Dona Cotinha, figura simpática e minúscula em seu metro e meio de altura, conversava com o sobrinho que por azar estava com o celular descarregado. 
— Estou te dizendo, recebi a informação de gente confiável. — Assegura Cotinha, levando o copo de cerveja aos lábios — O governo vai confiscar o dinheiro das poupanças novamente.
— Mas tia, não é verdade. Onde a senhora viu isso? – questiona o rapaz de 17 anos, um jovem um tanto magricela e pálido demais para o gosto de Cotinha.
— Deus me dê paciência! – exclamou, gesticulando de modo a chamar a atenção das outras pessoas espalhadas pelo lugar – Deixa eu explicar de novo do começo: estou num grupo de WhatsApp com as pessoas mais importantes da igreja, sabe como é, o padre, os coroinhas, e os irmãos mais ativos na comunidade. E um dos irmãos é sobrinho de uma senhora que trabalha como babá de uma bancária da Caixa. Essa mulher ficou sabendo por essa bancária que o governo mandou fazer um estudo de quanto dinheiro tem nas poupanças para mandar confiscar. Ela mesma mandou o áudio que o irmão Antunes compartilhou aqui no Fortes no Espírito.
— A patroa da tia do seu irmão de igreja? – o garoto não estava gostando nada daquela conversa.
— Isso mesmo, fonte segura.
— Mas se ainda fosse uma gerente...
— Mas se ela está sabendo é porque algum superior contou. O que importa é que se chegou até mim no Fortes no Espírito, é notícia confiável. 
— Fortes no Espírito?
— Sim, o grupo do WhatsApp da Igreja que te falei. – A velha já começava a perder a paciência.
— Mas tia, isso é mentira. Uma coisa dessas não aconteceria de novo nunca. E se acontecesse ia aparecer em todo lugar, internet, canais de TV, sites de notícias e não só no grupo de WhatsApp da sua igreja.
— Você quer dizer que eu estou mentindo, que o irmão Antunes está mentindo, que a tia dele está mentindo, que uma bancária da Caixa Econômica Federal está mentindo? Você é que é ingênuo demais, acredita em tudo o que a imprensa lixo diz na TV! Eles é que mentem para enganar as pessoas. – Esbravejou com o dedo quase tocando o nariz do rapaz.
— Eu não estou dizendo que senhora está mentido, tia. Só que essa história não tem pé nem cabeça.
— Pois não te conto mais nada. Deixa o seu dinheiro lá, parado, só esperando os engravatados enfiarem ele todinho no bolso. Depois não diga que não te avisei.
E saiu em direção a uma outra rodinha de pessoas que, ela imaginava, seria mais receptiva às novidades.