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Aparecido Carmo
Natural de Cuiabá, é jornalista e estudante de mestrado em Estudos de Cultura Contemporânea na UFMT. É coautor do livro “O obituário no jornalismo” ao lado de Paulo da Rocha Dias.

SOBRE PESSOAS E MÁSCARAS

O sinal estava fechado. Seu Cláudio tamborilava os dedos no volante, os olhos fixos no semáforo à espera da luz verde. Já estava atrasado para o almoço com a cunhada e o marido, recém-chegados da lua de mel. Silvia, sua esposa ficou de ir do trabalho direto para o restaurante.
- Porque aquele homem não está usando máscara, papai?
A voz da criança sentada na cadeirinha posicionada no banco traseiro chamou sua atenção e o mais velho viu pelo retrovisor que a filha apontava para fora do veículo, na direção de uma praça onde muitas pessoas aguardavam o próximo ônibus e onde um homem sujo e maltrapilho revirava uma lata de lixo.
De fato, ele não usava máscara e a camisa que vestia tinha um rasgo considerável na lateral, começando logo abaixo da axila direita. As roupas, assim como seus cabelos tinham um aspecto de sujo que incomodava mesmo olhando de longe. Ritinha, menina espevitada de 7 anos, parecia realmente preocupada com o sujeito que nunca vira antes. Para todo canto que ia, levava alguma de suas máscaras de princesas há quase um ano, e sempre ficava surpresa ao encontrar alguém sem essa peça do vestuário.
- Ele não tem dinheiro para comprar, filha.
Respondeu o pai voltando sua atenção para o semáforo que ainda não estava aberto.
- Mas ele não vai ficar doente?
- Ah... pode acontecer. 
Disse Cláudio olhando de canto de olho para o homem que sugava as últimas gotas de uma garrafa de suco que encontrou em meio ao lixo. 
Uma senhora que passava por ali com o rosto devidamente coberto, mudou a bolsa do braço esquerdo para o direito com desconfiança.
- E ninguém vai dar uma máscara para ele?
Emendou a criança. Não ia deixar o assunto morrer.
- As pessoas devem ter medo dele, Ritinha.
A demora do sinal em ficar verde começava a irritar o motorista.
- Só porque ele não tem máscara?
-  Também...
- Que dó, papai. Dá uma máscara pra ele.
O sinal abre finalmente. Seu Cláudio pisa no acelerador e entra à esquerda, em direção ao restaurante.
- Eu não tenho nenhuma sobrando aqui, Rita. E nós estamos com pressa. Lembra que a mamãe e os seus tios estão esperando?
Tentou desconversar.
- Mas e se ele ficar doente?
- Quando nós voltarmos do almoço, eu compro e levo para ele. Tudo bem?
- Tá bom.
Quando saíram do restaurante, entre beijos, abraços e acenos, Ritinha se distraiu com a boneca nova que ganhara da tia Rosa e nem se recordou do homem sem máscara. Também não percebeu que o pai mudou o caminho para não passar por onde estava o mendigo.