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Aparecida Cristina da Silva Ribeiro

Professora com experiência docente no Ensino Superior e na Educação Básica. Graduada em Letras pela Universidade do Estado de Mato Grosso, Campus de Cáceres. Fez Mestrado e Doutorado pelo PPGEL/UNEMAT - Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários, Campus de Tangará da Serra. Possui artigos publicados em Revistas e Coletâneas de circulação nacional.

Pássaros, canto e existência na poética de Natalino Ferreira Mendes

A tessitura poética de Natalino Ferreira Mendes capta olhares sobre o ser e a terra mato-grossense. Poesias da Terra! Assim são conhecidas as duas publicações de teor lírico do autor: Anhuma do Pantanal (1993) e Pássaro Vim-Vim (2010). Nessas obras, o olhar do poeta é lançado na vastidão e exuberância da terra natal, o verde das matas, o colorido dos pássaros da terra pantaneira, sobre o curso de águas tranquilas de rios e baías que compõem o espetáculo do pôr-do-sol cacerense. Sua escrita sensível descortina diante do leitor memórias fecundas da cidade, com monumentos históricos, sujeitos ilustres da terra e múltiplas identidades de sua gente. 
Nos poemas, o leitor encontra uma multiplicidade de imagens que figuram entre o telúrico e os sentidos metafísicos da vida. O pássaro é um símbolo presente nas duas obras e representa o duplo canto (das aves e do poeta). Com seu canto/grito estridente, a anhuma, ave pantaneira, desperta na bicharada do Pantanal o alerta da chegada de intrusos ao espaço da natureza. Por outro ângulo, o canto da ave desperta no poeta uma carga (positiva) de memórias sobre a infância: “Para mim, ave do pantanal /da minha terra, /teu grito tem sentido diferente. /É um encantamento /que me conduz ao longo do passado, despertando, lá da infância, a primeira Anhuma /que escutei /à beira da baía do malheiros /nas vizinhanças da cidade”. (Anhuma do Pantanal, 1993, p. 28)
O canto da ave alça voos profundos que buscam reconstruir na memória do poeta lembranças do tempo de infância. Na poesia do autor, o pássaro é um mensageiro, símbolo de alerta e esperança. É a Anhuma do Pantanal que anuncia a presença de “intrusos” nas várzeas pantaneiras. E é também o canto do Pássaro vim-vim que anuncia a chegada de algo novo: “talvez uma carta, um parente, um amigo, ou um filho ausente”. Não importa a passagem do tempo (ou a chegada da modernidade), o seu pio/canto anuncia a chegada de algo novo nas asas da esperança. 
Percebem-se as relações entre tradição e modernidade numa explosão de sentimentos que chegam até o leitor através da metáfora dos pássaros. A liberdade, o voo e o canto/melodia representam, na voz do poeta, a subjetividade do ser e da vida. Vale dizer, “por meio do processo psíquico de associações que encontra relações entre o sentimento do presente, as recordações do passado e o pressentimento do futuro, entre os fenômenos da natureza cósmica e os atributos do ser humano” (D’ONOFRIO, 1995). Portanto, é através de voos e cantos que os pássaros mensageiros (anhuma e vim-vim) fazem a conexão entre passado/presente, tradição e modernidade, entre o ser e o tempo na poética do escritor.

Referências
MENDES, Natalino Ferreira. Pássaro Vim-Vim: poesia da terra. Cáceres-MT: Editora UNEMAT, 2010.
MENDES, Natalino Ferreira. Anhuma do Pantanal: poesia da Terra. Passo Fundo/RS: Gráfica e Editora Pe. Berthier, 1993.
D’ONOFRIO, Salvatore. Teoria do Texto II: teoria da lírica e do drama. São Paulo: Editora Ática, 1995.