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Anna Maria Ribeiro Costa
Na primavera de 1982, chegou às terras do povo indígena Nambiquara do Cerrado. Dele recebeu o nome Alusu, devido aos seus hábitos alimentares. Nessas terras conheceu José Eduardo, com quem tem dois filhos: Theo e Loyuá. Vem se dedicando aos estudos sobre os povos indígenas de Mato Grosso, em atenção às narrativas míticas e à cultura material e imaterial. É doutora em História pela UFPE e membra efetiva do Instituto Histórico e Geográfico de Grosso. 

| HALUHALUNEKISU, A ÁRVORE DO SABER |
LITERATURA INDÍGENA: SOLIDARIEDADE COMO SUBSTÂNCIA 

Os povos indígenas, contrariamente ao que pensa grande parte dos brasileiros, estão impelidos por aspirações de entender o mundo em que vivem diante à natureza humana e sua relação com a sua sociedade, o meio ambiente, a cosmologia, os sonhos, os fenômenos psíquicos. Nas sociedades indígenas, entender fenômenos sociais e da natureza implica em reviver ancestralidades. Os ancestrais, objetos de culto, se relacionam com os indivíduos vivos por genealogias reais e com os seres sobrenaturais por genealogias míticas. O Ocidente, por sua vez, a colocar em interrogação os paradigmas dos povos indígenas, caracterizando-os, na maior parte das vezes, como quimeras.
Lévi-Strauss, o francês que detestou a baía da Guanabara, se tornou etnólogo durante sua estada no Brasil após suas expedições às terras dos povos Kadiwéu, Boe-Bororo, Nambiquara e Kawahiva.  Em ‘Mito e Significado’ (1978), ditou que ao invés de entender os povos indígenas como possuidores de um tipo de pensamento inferior, definido por representações puramente místicas e emocionais, são detentores de conhecimentos empíricos. ‘Agem por meios intelectuais, exatamente como faz um filósofo ou até, em certa medida, como pode fazer e fará um cientista’. 
Os conhecimentos ancestrais dos povos indígenas veiculam nos espaços aldeãos pela narrativa oral. Guardiões de memórias, contam sobre tempos longínquos, a explicar o surgimento dos astros, dos animais, dos alimentos, dos artefatos, a revelar inúmeros saberes que são passados de geração a geração e, nos dias de hoje, resguardada também pelas linhas da escrita, presentes em muitos povos indígenas. Ao romper o espaço da aldeia, suas epistemologias chegam por oblação ao mundo ocidental pelas páginas da literatura indígena: histórias do contato violento dos invasores, religiosidades, cosmologias.
A ordem e o significado das coisas atrelam-se aos esquemas mitológicos como códigos sociais de comunicação. Narrativas míticas permanecem na memória coletiva, são postas em memória, principalmente na dos mais velhos, reveladas como um caleidoscópio exibindo conhecimentos a cada arranjo narrativo, numa sequência cambiante de esquemas e ressignificações. 
Vozes ancestrais indígenas chegam do ‘tempo de antigamente’, aquele que não se conta. Vêm das gentes dos rios, rebojos, cerrado; do céu, das estrelas, das lagoas, cachoeiras, cavernas, florestas. Chegam à palavra oral. À palavra escrita. São ouvidas nos livros. Distantes da visão ocidental, continuam, ainda, incompreendidas, inaudíveis pelo cânone da modernidade. Melhor dizendo, estão amordaçadas. 
Fundamentadas em ‘vozes ancestrais’ (Munduruku, 2016), de lá dos ‘lugares de origem’ (Krenak, 2021), a propor ‘ideias para adiar o fim do mundo’ (Krenak, 2019), a mostrar que aos moldes atuais ‘a vida não é útil’ (Krenak, 2020) e apontar em direção ao ‘futuro ancestral’ (Krenak, 2022). Os pensares de Munduruku, de Krenak, em afluência aos tantos autores indígenas, indicam que existem opções salutares para o Estado, para a Nação. Alternativas para escapar da servidão do neoliberalismo e sintonizar com os ideais e realizações da ‘outra economia’ (Cattani, Laville, Gaiger, Hespanha, 2009), regida por princípios da solidariedade e avessa às práticas excludentes, sociais e ambientalmente predatórias.
Num diálogo horizontal, as vozes ancestrais presentes nas histórias indígenas são convites a criar outros mundos, reclamar outros mundos. Insubordinar-se à lógica monolítica de um só mundo. E, assim, o prazer de fazer o próprio bem viver, avesso aos modelos ocidentais, ipsis litteris, desafiando projeções futuristas. A cura da terra (Potiguara, 2015)
Ler literatura indígena consiste em estar diante de aprendizagens decisivas: compreender que há modos de vidas que inventam e ressignificam histórias e mitos, motivando renovações por aproximações e rupturas que beneficiem a coletividade. 
As ‘Historinhas Marupiaras’, de Elias Yaguakãg, da etnia Maraguá, Amazonas, ensinam que a felicidade individual só tem sentido se contribuir para a felicidade da coletividade. E que pessoas felizes, sem rancor no coração, formam com os outros seres da natureza uma forte corrente de solidariedade, esta a própria substância humana. 


Referências bibliográficas

CATTANI. Antonio David; LAVILLE, Jean-Louis; GAIGER, Luiz Inácio; HESPANHA, Pedro (coords.). Dicionário Internacional da outra economia. São Paulo: Almedina, 2009 (Série Políticas Sociais).
KRENAK, Ailton. Futuro ancestral. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.
KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 20190.
KRENAK, Ailton; CAMPOS, Yussef. Lugares de origem. São Paulo: Jandaíra, 2021.
LÉVI-STRAUSS, Claude. Mito e significado. Lisboa: Edições 70, 1978 (Perspectivas do Homem).
MUNDURUKU, Daniel. Vozes ancestrais: dez contos indígenas. São Paulo: FDT, 2016.
POTIGUARA, Eliane. A cura da terra. São Paulo: Editora do Brasil, 2015.

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