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Anna Maria Ribeiro Costa
É doutora em História pela UFPE e Professora do Univag. Chegou às terras do povo indígena Nambiquara na Primavera de 1982. Dos índios recebeu o nome Alusu, por conta de seus hábitos alimentares. Nessas terras, conheceu José Eduardo, com quem tem dois filhos: Theo e Loyuá. Vem se dedicando aos estudos sobre os povos indígenas de Mato Grosso, com especial atenção ao Nambiquara.

HALUHALUNEKISU, A ÁRVORE DO SABER
 
ARDILEZA DOS ANIMAIS

 

No final da tarde, a mamãe tatu-galinha saiu de sua toca para procurar alimento. Em tranquilidade, deixou seus filhotes na toca, bastante protegida de predadores. Percorreu trilhas a vasculhar o solo úmido sob folhagens à procura de insetos; cavoucar o solo em busca de raízes; fuçar esconderijos para caçar pequenos vertebrados e coletar ovos. Mas, nem bem se distanciou de sua toca, uma onça pintada sorrateira atacou a mamãe tatu-galinha, matando-a. 
Não satisfeita, a onça, até então o único animal a possuir pelo, foi até à toca procurar mais presas. Ao chegar, tentou enganar os filhotes, mas não teve sorte. Os espertos irmãos tatus-galinhas logo desconfiaram de que a mãe havia sido morta pelo animal feroz. A onça elogiou a beleza dos tatus para que cedessem à conversa e esmorecessem. Nada feito.
Os tatus convenceram a onça pintada de que ela ficaria tão bonita como eles se ficasse enlaçada em uma corda. Interessada em ganhar beleza, deixou-se levar pela conversa da criançada. Os filhotes enlaçaram a onça com corda molhada para deixar os nós mais apertados e difíceis de desata-los. A onça, em vão, reclamou de dor. Não aguentou o sofrimento e morreu.
Vitoriosos, os filhotes de tatu-galinha chamaram todos os bichos que estavam nos arredores de sua toca para ver o grande feito. Para ganhar pelos, a cutia, a paca, a anta e tantos outros bichos pegaram um pedaço do couro da onça e comeram. Satisfeitos por ganharem mais proteção contra-ataques de onça, foram embora.
Mas, ao repartir pedaços de couro aos animais, gotas de sangue caíram no chão. A gota menor se transformou em jaguatirica, que caça animais pequenos como ratos e cutias. O segundo pingo, de tamanho maior, deu origem às onças de hoje, especialistas em animais grandes, como o veado.
E desde esse tempo, os animais não escapam dos ataques da onça e da jaguatirica.