André Luís Alves Campos
24, bacharel em direito, fascinado por literatura, línguas e pelo estudo da mente humana sua vasta complexidade e possibilidade infinita de interpretação. Como maior inspiração para escrever tenho meus próprios sonhos e juntamente com estes também diversos autores como Lima Barreto, Álvares de Azevedo, Edgar Allan Poe, Nietzsche entre outros.

CAPGRAS

Desde pequeno, nascido grande e forte e criado numa grande casa, me acostumei com as regalias de uma vida tranquila que sempre me favorecia, e que sempre me distanciava de tudo que poderia me trazer perigo, assustar ou me provocar terror.


A família era grande e minha mãe muito prestativa, sempre realizava reuniões e outros eventos afim de unir os familiares e trazê-los mais para próximos de nós. Sempre vi minha mãe como uma criatura doce de um sorriso muito sutil, mas que sempre me passou tranquilidade jamais vista como todas as mães, eu acredito, deveriam ser. 


Com o passar dos anos e com um pouco mais de idade, naturalmente toda criança começa com suas pequenas aventuras, e se afastar mesmo que por mínimo de seus pais, mas minha mãe como toda boa mãe sempre ali estava cuidando e olhando de por mim, me transmitindo paz e me consolando quando eu como criança inocente me achava desamparado ou triste.


A partir daqui peço para que creiam em minha mente pois tudo que conto não é nada mais do que vi e senti a partir de uma certa época de minha vida. Por volta dos oito anos, minha relação com minha família começou a mudar, nada anormal para uma criança, mas um pouco introvertido. As reuniões de família começaram a me incomodar, nada insuportável mas levemente inconveniente, não pelos meus parentes inquietos e falantes e as intermináveis apresentações as quais minha mãe me fazia, mas sim a figura de minha mãe. Parecia depois de tantos anos diferente, nem mais triste, nem mais feliz, somente diferente, levemente desconhecida para mim. A confiança que tanto me passara a alguns anos e o acalento que me dava em dias tristes desaparecera e eu a comecei a olhar a minha tão querida mãe como uma estranha.


A tristeza de conviver com uma pessoa que me parecia desconhecida me tornou cada vez mais antissocial e afastado da minha mãe que já agora, não conhecia. A tristeza era enorme e com isso uma depressão profunda me atingiu, procurava me afastar de tudo e de todos e, principalmente da figura estranha que na minha mente se passava pela minha mãe. 


Nossa relação se deteriorava com o tempo e a tristeza de minha genitora era clara, ela passou a ficar nos cantos, deprimida, angustiada sem saber o que realmente acontecia de verdade na minha mente. Nossas conversas eram curtas e não levavam a lugar algum, cada vez menos a conhecia como aquela mulher protetora e mãe que tinha me criado e sua imagem quase desaparecera da minha mente. 


Minha preocupação e aflição aumentavam dia após dia, não me permitindo dormir mais à noite e quando conseguia era acompanhado de pesadelos terríveis que incitavam minhas mais profundas paranoias e medos infantis. Estava trancado na minha mente com meus medos e com minhas verdades, mas uma certeza eu tinha, algo muito errado havia com a minha mãe e que não era aquela pessoa de anos atrás.


Certa noite de inquietude e pouco sono, resolvi sair do meu quarto e caminhar pela casa de madrugada em busca de alguma coisa para me acalmar e talvez até me cansar e assim me levar ao sono, andando com minhas meias e meus passos lentos e silenciosos pela casa, descendo as escadas, observei aquela que agora tanto me assustava pela grande janela do primeiro andar, parada no jardim observando o nada ou, a entrada da grande adega que havia no jardim da grande casa onde morávamos. Fiquei lá, por muito tempo a observando-a, não se movia e não parecia nada normal. Como alguém poderia ficar tanto tempo fitando o nada pela a madrugada sem motivo algum? Fitando o absoluto nada? nunca soube nada sobre sonambulismo na família, muito da menos da parte dela, parada ali por horas ela permaneceu até o quase amanhecer quando eu resolvi voltar ao meu quarto, totalmente assustado e definitivamente convencido de que aquilo que parecia ser minha mãe já não era mais a muito tempo e minha possível loucura parecia ser muito mais real do que eu imaginava.


Ainda naquela estranha semana, já com o corpo e a mente cansada em uma noite de quinta-feira, não resisti e cai num profundo sono em meu quarto. Tive um terrível pesadelo e junto a ele uma paralisia do sono que me deixou apavorado. Acordei aos gritos de uma criança que chama somente uma pessoa que tem a chamar, quando está em total desespero: sua mãe. Logo a porta entreabre e ela entra com a mesma feição de anos a atrás e veio me acalmar, me colocou em seu colo, depois de um longo choro, me fez descer com ela pelas escadas da casa até o jardim e olhar as flores sob o luar. Ainda estava assustado, ofegante e soluçando, mas ainda me parecia tão mais real aquela feição que a tempos não tinha visto que logo minha ansiedade e desespero foi seesvaindo e fui me tranquilizando.


Ela com sua voz doce e seu rosto com uma expressão sublime, segurou minha mão e me levou até a adega onde não só havia vinhos, mas também inúmeros livros. Como toda adega, era pouco iluminada e bastante úmida. A princípionão compreendi o porquê, mas já tinha minha mãe e minha confiança recuperada, meu medo já não existia mais, tudo havia pelo que parecia voltado ao normal, então sequer questionei o porquê de estar naquele lugar que a dias atrás me fez estremecer quando a vi parada, olhando por horas a fio.


Ao descer as escadas, vi diversos livros sobre a mesa, muitos sobre medicina e psiquiatria, garrafas de vinho vazias e algumas taças, havia luzes apagadas, então minha mãe me disse para aguardar a mesa enquanto ela iria ligá-las. Ela virou-se e caminhou até o corredor onde ficava todo o controle das luzes. No momento em que ela desapareceu pelo corredor, meu coração disparou e minha mente simplesmente começou a se questionar sobre tudo que eu havia cogitado por meses, anos e, principalmente, na últimasemana. Meu medo retornou e com ele minha dúvida e minha estranheza e total desconhecimento da figura que agora estava comigo numa adega fechada sob luz baixa; minhas pernas estavam trêmulas, pensei em correr, mas o medo me impedia de me levantar e, de imediato, as luzes se acedem fortes e ofuscantes. Voltei-me ao corredor, esperando inutilmente que minha mãe, aquela que me acompanhou, voltasse, mas como imaginei quando as luzes bateram em seu rosto, ele era o mesmo rosto conhecido dela, mas com certeza minha mente jamais me enganaria, não conseguia associá-la mais a figura de minha mãe porque não era ela. E me vendo tremer em situação praticamente de pânico, ela se aproximou de mim de forma rápida, diferente de como faria antigamente e segurou meus ombros, com força, me questionando o que havia acontecido e o que estava acontecendo, o que ela havia feito e por quê eu tinha mudado tanto, comecei a chorar, desesperado sem conseguir mexer meus braços com facilidade, peguei o objeto mais próximo possível, uma taça e a quebrei no rosto da impostora que se dizia minha mãe. Esta agressiva, me empurrou da cadeira, cai no chão e corri desesperadamente, porém de forma inútil foi pego por um dos funcionários, que com certeza estava conspirando junto a ela.


Hoje, de onde escrevo, tenho pouca luz como tinha aquela noite na adega, mas as paredes são brancas e acolchoadas e a luz do sol é vista por mim por uma pequena janela com barras grossas, de onde eu consigo ver somente um pátio e algumas pessoas de roupas tão brancas quanto as paredes do quarto, onde eu fico o dia todo, às vezes caminho pelo corredor, porém não reconheço ninguém.


Recebo cartas de minha mãe, da verdadeira, ela pouco fala sobre o que realmente aconteceu, sobre porque desapareceu ou quem era aquela pessoa em seu lugar; suas palavras são vagas, mas conversamos muito ainda mesmo por cartas. Meus médicos ou carcereiros dizem que não posso vê-la. Mas espreitando uma conversa em meu pouco tempo livre, ouvi dizer que eu não a reconheceria e que me faria mal, jamais compreendi tal afirmação e o porquê de ver o rosto de quem me fez tão bem na minha curta infância, me faria tão mal. 


Ainda estou aqui, resido trancado nesse lugar, sem saber porque e talvez nunca saiba, pois além da prisão física, minha mente já parece ter me aprisionado e a saída talvez não exista.

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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