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Ana Lorena Teixeira 
É feminista, poeta das nuvens e do caos paulista. Participa de saraus pela cidade. Amante da escrita e de toda forma de expressão. Possui gostos peculiares, sonhos maiores que arranha-céus e aquela velha vontade de mudar o mundo. Ama e odeia política e é fiel devota à sua religião: ‘Do it yourself’.

NUNCA MAIS

Mário de Andrade se revira no túmulo

“Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio
Morte ao burguês de filhos
Cheirando religião e que não crê em deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico
Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burguês”

Imagino sua voz, neste seu poema,
Vendo e vivendo tempos que se repetem.

Penso em Drummond e em seu país bloqueado
De Getúlio Vargas
Penso no Henfil, no Geraldo Vandré
Que de tanto tomar choque
Hoje tantas sequelas colhe

Penso em Marias e Clarices
Neste cálice que não consigo beber
Deste caos que não consigo fugir
Neste armamento que não quer florescer

Então, Mário de Andrade que desceu aos infernos
Meu ode ao burguês ecoa singelo
Ode à milícia
Ódio aos assassinos
Ódio à política de twitter
Presidente clandestino
Ódio ao descaso e falta de educação
Ódio ao estado, senado e constituição
Tudo o que falta aqui é revolução
Bolsolixo abomino, quem é você então?

E a todos os mortos e torturados
Que tiveram todo e qualquer direito humano negado
As mães que nunca acharam os corpos de seus filhos
E hoje presidente que defende assassino?
E cita Ustra como herói brasileiro?
Meu ódio profundo, rico, sincero!
Pra quem faz slogan cristão
E só propaga ódio e destruição.

Povo oprimido? Jamais!
Povo lutando por paz!
Que você caia com seus ideais
Ditadura aqui? Nunca mais!
 

FILOSOFIA

Não tenho conserto
Se eu fosse um boneco
Talvez, no lugar do enxerto,
Existisse um vago e profundo eco.
Se não tenho conserto
Tento me ressignificar
Se não faço direito
O torto posso aperfeiçoar.
Pode ser que não consiga dormir
e escreva até perder a consciência
escrevendo, despida de eloquência
nesse espaço etéreo entre pensar e sentir
em que, ambos, me trazem aqui.
Mas eu não tenho conserto
e essa ideia de revolução é utopia
no lugar do enxerto
me deram filosofia,

PRESIDENTE OCO

Dois preto, dois baseado
Tive amigo preso
E amigo assassinado

Avião branco domina
Na surdina
E enche o cu de cocaína

Tem deputado
Que só anda cherado
Trafica e nunca viu
O sol nascer quadrado

A política tá cansada
Resolveu se aposentar
Mas aqui não arruma nada
Que aqui só aposenta militar

De disse não disse
Moro mora, morô?
Justiça não existe
É tudo comprado, doutô

É laico este estado
Feito de evangélico
Por todo lado

Mas, pior que o presidente
calado
É o presidente 
falando.