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Álvaro Fausto Taruma
Escritor moçambicano. Publicou Para Uma Cartografia da Noite (2016), Matéria Para Um Grito (2018) e Animais do Ocaso (2021). Tem colaborado com jornais e revistas literárias em Moçambique e Portugal

CURTA-METRAGEM

Apresento-vos a mão de quem tocou a escuridão do mundo
Os seus dedos vivem colados ao seu improvável rosto
Os seus vinte dedos demasiadamente numerosos
Para quem tem uma só estrela por cada noite uma só morte
E a vida toda a refazer-se desta cíclica tempestade.

Felizes são os que retornam aos seus lugares de origem
A minha viagem é um pensamento que não tem volta
Estou tentando recriar o mundo à minha imagem e dissemelhança
Com este mundo que nos foi dado e repartido como oferta
À custa dos braços de quem envolveu seu sangue ao lodo.

Não vos direi com palavras o que se viu desse lado opaco da terra
Custa acreditar no dia que reencontramos o nosso próprio esqueleto 
Esmagado pela trepidez do corpo e arruinado pelo ácido dos pesadelos
A água a luz e o pão das nossas dívidas não chegam a nada
Diante desta triste e impermutável sabedoria.

Aqui está a mão de quem transporta à vista algum segredo
Com a clara compreensão de que tudo é finito
Basta um telefonema do consultório médico para abrir a ferida
O amor como todo o álibi atraiçoa
Ninguém diz não quando se desce à cova do abandono.