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Adriano B. Espíndola Santos
É natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro livro, o romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”, e em 2021 o romance “Em mim, a clausura e o motim”, estes pela Editora Penalux. Colabora mensalmente com as Revistas Mirada, Samizdat e Vício Velho. Tem textos publicados em revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir – sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária. Membro do Coletivo de Escritoras e Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.

SONHAR, PECANDO

Não mais. Foi-se o tempo. Tenho consciência e sou realista; não pessimista, como insiste Gabriela, minha neta. Ela é muito nova para entender dessas coisas. Até lhe pergunto se a minha idade avançada não serve para nada, além dos achaques. Sim, ela pensa que sabe de tudo: tudo! Já pensou? Eu, que fui um homem de posses, viajei; arranjei suplícios amorosos dos quais sequer gosto de me lembrar, posso ser um fracassado, mas pouco vivido, experimentado, não! Como se diz: “Passado na casca do alho”; “Gato escaldado tem medo de água quente”, e por aí vai. Gabriela deu agora para ser empreendedora e vem me falar, serelepe, sobre uma tal de criptomoeda. Que eu serei rico, se souber “investir” o meu dinheiro. Ora, rico para quê? Logo mais morrerei. E, por precaução, não falo nada acerca dos meus proventos, que são mirrados – pode ser que, se souberem, ela e o seu pai, me largarão nalguma casa de repouso vagabunda, cheia de velhinhos sebosos. Fracassado, mas não burro! Fracassado por opção; porque quis viver e gozar enquanto podia. Se isso é ser fracassado, pois muito bem: sou. Para desviar o assunto, digo que vou ajudá-la com um dinheirinho. Tenho de juntar ainda mil contos, para ver se ela me deixa quieto. Mil é o máximo de que posso dispor, para não comprometer o meu sustento. Aquela menininha sagaz parece que puxou ao avô – a mim –, e nisso me realizo, de certa forma. Ela bola planos para voar; não pretende ficar nesta terra de “fracassados”. Diz que vai morar em Luxemburgo, um pequeno país da Europa, porque ali há “dinheiro escondido por entre os jardins”. Fala, até, um pouco esnobe – puxando ao avô, na juventude –, que será rica, muito rica, “do tanto que eu possa comprar tudo que eu quiser, quando quiser”. Refleti pouco e fiz exatamente do mesmo jeito. Não contabilizo a fortuna que derramei por este país, em festinhas privé, com os políticos e empresários mais gananciosos e medonhos que o cofre do Brasil já suportou. Ah, o que dizer de Altair Gonçalo e de Leonardo Dalmo Assis? Foram políticos bárbaros, inclementes; morreram como lhes convinha, em acidente e na amargura, respectivamente; e, veja, diziam-se meus amigos-irmãos. Continuo sobre a minha menina… as memórias me perturbam; é preciso não lembrar. Mas como? Enfim, Gabriela, Gabriela Diniz… Hoje teremos uma conversa séria. Liguei cedo, desejei um belo dia – ciente de que a noite não seria tão boa assim. Ela vem para o jantar. Devo declarar que ela pode acabar como o avô, em completo ostracismo. Que ela é jovem, saudável, e não carece, de jeito nenhum, pensar só em dinheiro. Por que não viajar, sim, para passear, estudar? Por que não levar esse bom velhinho para assistir a um filme, ou mesmo a uma peça? Não. É egoísmo meu. Tudo desmanchado. A nossa conversa não terá o fim que planejei. Melhor largá-la para sonhar, pecando.