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Adriano B. Espíndola Santos
É natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro livro, o romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”, e em 2021 o romance “Em mim, a clausura e o motim”, estes pela Editora Penalux. Colabora mensalmente com a Revista Samizdat. Tem textos publicados em revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir – sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária. Membro do Coletivo de Escritoras e Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.

PASSAR BEM


“Não me comprometo com o que não sei”. Foi isso o que disse para Camila. Ela, pela décima vez, tenta me colocar contra a parede, como se eu fosse cúmplice de seu marido. A merda toda é que Gerardo Filho, o dito cujo, é meu amigo de infância. Mesmo ela sabendo, ou fingindo que não sabe, pergunta as loucuras mais absurdas: “Ah, mas e o jogo do Timão, na terça, cês não foram?”; “E a cervejinha depois do trabalho, na quinta, não rolou por quê?”. Caramba, fico em tempo de gritar: “Porra, eu não falo com o Gerardo Filho há, sei lá, um ano, desde o começo da pandemia!”. Não esculacho porque a mulher é paranoica, e vai que dá uma pira de aparecer no meu isolamento, para me afrontar. Além do mais, Gerardo Filho está cagando e andando para mim. E eu também não quero saber dele e de sua linda família. Sabe por quê? Primeiro, porque o digníssimo é mancomunado com coisas erradas, de todos os níveis: compra de material fraudulento; tem negócio em jogo; saídas e farras em tempo de pandemia. O que que eu quero com Gerardo Filho? Porra, que se fodam ele e a sua turminha… Mas, para falar a verdade, tenho pena da Camila. Parece um carma o que ela tem com “o seu homem”. Diz que, quando está prestes a terminar, ele arruma uma confusão e ela tem medo de deixá-lo “desamparado”; do que ele possa fazer. Pobrezinho, um menino, um coitado, que não sabe nada da vida. A questão toda, duvido que não seja, é que ela tem uma dependência emocional dos infernos; e não consegue se ver longe de encrenca. Isso atiça a sua miserável existência. É uma tara masoquista. Ela liga para desabafar, passa uma hora no telefone, e no fim diz que a vida é assim: cruel. Ou seja, uma suicida conformada. Na última vez, pedi que ela procurasse uma terapia; que não fazia mal a ninguém; que eu mesmo estava participando de sessões e que, por isso, me sentia bem mais disposto, revigorado, para enfrentar essa desgraceira toda do mundo. “Oh, Jean, cai na real! Eu vou fazer terapia se o Gerardo Filho não faz?! Vou ficar me tratando se ele não quer nada com nada?”. Bom, em parte ela tem razão. Contudo, penso que uma terapia a ajudaria a pensar e, quem sabe, se livrar desse bendito carma. A novidade é que, para completar, como se já não bastassem duas crianças, Camila está grávida da terceira. Talvez seja a terceira tentativa de “amarrar o homem”, como ela faz crer. Meu Deus, onde é que esse povo está com a cabeça? E ainda veio com uma conversinha interessante: “Jean, aconteça o que acontecer, você será o padrinho dessa criança!”. Ah não, aí eu despiroquei de vez: “Agradeço. Agradeço muito, minha querida, mas eu não estou dando conta nem da minha vida. Passar bem”.