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Adriano B. Espíndola Santos

Natural de Fortaleza, Ceará. Autor do livro Flor no caos, pela Desconcertos Editora, 2018. Advogado humanista. Mestre em Direito. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.

OS ANIMAIS DA CASA AMARELA

Quando era pequeno, em idade de se entender alguma coisa, costumava tomar o rumo das formigas, das lagartixas, das moscas, dos calangos-dinossauros, até mesmo dos soins, com as tentativas desastradas de vingar muro afora.


Era doce ouvir, do pé da janela, cedo do dia, o chamado do chefe alertando aos demais os benefícios de passar na casa amarela. Um redemoinho animal se aglutinava, pois que, para completar, papai trabalhava no interior e chegava, quase sempre, com um bicho para completar o “zoológico” – palavra de mamãe, em sinal de reprovação e desânimo. Trazia, embaixo do braço, uma galinha pé-duro; outro dia, um capote; preás e codornas, várias, e, para isso, porque tínhamos de alimentá-las, uma ruma de frutas e cereais. Às vezes, o que não era difícil, punham-me no vagar, e perdia o horário da aula, ou me perdia em sala de aula, pensando nos filhotinhos: no que estava com a perna machucada, no que tinha um problema na pele, no carinho e no aconchego a me esperar.


O bando viçoso de soins se achegava e não havia algazarra, absolutamente – “mas que cousa!”, a face santa de meu avô estupefata denunciava o louvor. Primeiro descia o chefe, robusto, ditoso, pronto para revidar a um ataque, porventura, sorrateiro que viesse. Então, liberados, baixava um a um e abocanhava a sua porção farta na boca e nas bochechas, imensas, elásticas, com as quais eu ficava intrigado de não se partirem. Pegavam o que necessitavam, nem mais, nem menos – parece que lembrando dos outros, confinados entre os muros da casa amarela.


Caía absorto na contemplação. Era tido como abobalhado – “Ô menino besta!” –, mas não ligava muito, não. Só me encucavam os bodejos da dona Geraldina, enquanto lavava roupa no quintal, irredutível: “Bicho quando presta pra dar trabalho a gente põe na panela!”, e emendava com um arroto, uma espécie de exclamação e de encerramento de papo. Ligeiramente acostumado com a aberração, preferia mesmo ficar com os meus préstimos de desbravador e de encantador de animais, e me esquecer da senhorita Porca. 


Bom, de resto, porque ajudava vigorosamente a cuidar dos capotes, pombos, galinhas, codornas, peixes, cachorros, gatos e soins, tudo junto, me detinha a entender a pura forma do amor, muito mais singela que a dos humanos, que brigavam, traíam, gritavam; destruíam-se, ali, pertinho de mim. 


A fêmea de soim, que eu chamava de Bolinha, agarrava firme o filhote que insistia em sair, para se aventurar entre os galhos secos. A gatinha Nana passava longas horas dormindo, e isso ela fazia bem, além do chamego matinal à procura de leite, enquanto os filhotes, de uma ninhada de oito, também o faziam grudados nas tetas, amassando pão, para se deliciarem do manjar primordial. A preá Gertrudes, uma lady, finíssima, conduzia, de focinho arrebitado, a fila indiana para o melhor esconderijo; mas, vez por outra, vinha “pedir a bênção”.


O mais notável dia, em que me senti pertencente ao mundo animal além dos limites da casa amarela, foi quando largaram, propositadamente, o cego Aderaldo, miúdo que só ele, um vem-vem de magro, coitado. Decerto, não podia mais seguir o bando de Lampião, aquele robusto chefe de que falei. Foi aí que dele cuidei até poder, de alguma forma, retomar a sua sina. Passaram-se exatas três semanas, quando a mãe, não suportando a dor da saudade – sim, todos sentimos saudade –, veio buscá-lo sozinha, aos gritos, e o afetuoso apego fez-se luz no fim da tarde de um domingo, no mês de dezembro de 1992, e transbordou pelos confins do meu coração. Foram-se embora para nunca mais, mas deixaram o mais precioso entendimento de proteção e de respeito, como tem de ser: que somos parte de um sistema; que renegar o amor e a vida é antinatural, é o decreto do fim.